quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sangue e Mostarda - Capítulo 1 - O Acidente




Em 11 de junho de 1996, ao meio dia e quinze, houve a explosão do Osasco Plaza Shopping.
O acidente aconteceu na praça de alimentação, devido a um vazamento de gás no subsolo do piso térreo. A violência da explosão fez com que o piso fosse elevado e o concreto desabasse, matando 42 pessoas e deixando mais de 300 feridas, algumas gravemente. A principal causa apontada para a explosão foi a falta de ventilação no porão onde se encontrava a tubulação de gás.
Longe dela sinto que nem eu e nem ela existimos e a noite vai ferindo, ferindo, gaguejando silêncios, sobrepondo dúvidas até que a saudade coloque a mão sobre a minha boca e me cale.
Debato-me, deixo a mente me guiar por caminhos escuros e labirintos cheio de cinzas e fumaças.
É eterno, esse segundo é eterno e nele moram todas as minhas certezas.
Com os lábios ainda cheios de marcas de mordidas, coço a pele arranhada, aqui nesse quarto não tenho espelhos, não tenho nenhuma foto, nenhuma lembrança, apenas uma luz fraca e as paredes sujas.
Tudo ficou espalhado pelos cantos da lembrança, a corda suspensa no teto, o pescoço pendendo, a cabeça dizendo não.
Como é bom ter os olhos fechados, assim eu percebo que onde eu vivo é mesmo aqui dentro de mim, onde não há visitas, onde as cadeiras permanecem vazias e os fantasmas caminham na ponta dos pés.
Não tenho medo agora, sou apenas a sombra, apenas brinco de me esconder de mim mesma, duas palavras bastam, como um mantra gasto, assim desabo em meus sonhos, até a sombra de um pássaro cobrir todo o quarto e desaparecer.
Já disse que não tenho medo, não tenho nem ao menos a certeza de que existo, sou apenas um risco de luz, um meio-termo, um símbolo matemático desenhado com os dedos em um pote de água.
De manhã, logo cedo não estarei mais aqui, espero que se lembre de mim, espero que aqueles dias fiquem acorrentados na memória como um sonho arquivado, um leve e distante piscar de olhos.
Não permaneço, permanecer dói, cansa.
Eu nunca pude pensar por mim mesma.
Como se houvesse uma linha delimitada, desenhada de giz branco, onde o Universo diz, com voz de trovão:
_Ande, esse é o teu Destino, caminhe, exista, não faça curvas, não pense, não ame, não odeie, não seja.
Apenas sigo, assim como todos, uma longa e enfadonha viagem em direção a lugar nenhum.

domingo, 8 de outubro de 2017

A Casa Vazia

A casa vazia

A ampulheta imprecisa permanece estática.

A arma apontada para a cabeça, os olhos pesados, as mãos tremulas, o suor profano cintilando no segundo eterno. Nenhum grito, nenhuma saudade, nenhuma suavidade sonora, nenhuma santidade esquecida que pudesse ser avisada. O cano pressionado carimbava um círculo mágico, que aos poucos ia ficando mais evidente, a pele marcada como boi, como bicho em sacrifício, como o próprio tiro antecipado, como alvo premonitório.

A oração atravessava a linha do silêncio embalando em religiosidade a carne prestes a ser abatida.

Lembrou-se do grito mudo. Lembrou-se da noite com a Lua apagada, pássaro mordendo e arrancando a língua do tempo. Lembrou-se da sanidade, que gemeu e se jogou do abismo, pairando no último segundo.

Moveu-se um pouco, sacudiu as últimas lembranças.

O tiro escorregou pela arma, bateu e vibrou como uma pedra saltitando na água, desviou do destino para se alojar no quadro pendurado na parede, um quadro de uma casa à beira de um lago, do outro lado do mundo, aquele dia a morte encontrou a casa vazia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Gotta a light?



Gotta a light?
_ A fita, pega a fita.
A poeira dançava por entre o feixe de luz na escuridão do quarto.
_ Tá em cima do guarda-roupa, numa caixa de sapato.
_É essa? A fita VHS estava começando a pegar formiga, alguns pontos brancos de mofo.
_Se tiver alguma fita dentro pode trazer,vamos usar.
Beto colocou a fita na mesa de centro.
_Pronto. Esfregava as mãos e sorria. Esfregava as mãos e sorria. Sorria. Suspirava forte. Esfregava as mãos.
_O André disse se vem?
_ Tá vindo com o Clóvis, pararam no supermercado pra comprar vinho.
_E a Lúcia?
_Também vem, tá vindo com o Flávio.

A campainha berra.
_E aí, caras. Podem entrar e ficar à vontade, sentem no sofá, podem deixar as garrafas na cozinha.
Outro berro.
_Chegou o casal que faltava.
Luís era um ótimo recepcionista, o sorriso lateral e o aperto de mão forte.

A casa em que os irmãos moravam era grande, piscina na área externa e uma academia que nunca era usada. A sala de cinema era onde se reuniam sempre. A mesma turma.

_Vamos começar?
As velas foram acesas, uma a uma.
Um grande caldeirão foi posto sobre a mesa de centro.
Essa reunião de cinéfilos sempre acontecia no último sábado do mês, mas dessa vez Luís e Beto resolveram que iriam assistir o oitavo episódio da nova temporada de Twin Peaks todos juntos. No dia anterior Beto tinha visto alguma coisa na internet sobre fazer chá com fita VHS, que dava barato, que alucinava, que fazia ver coisas,mas que era perigoso. Inventou pra todo mundo que ia fazer chá de cogumelo, mentiu dizendo que quando foi pra São Tomé das Letras tinha aprendido.
De tarde, enquanto Luís estava no quarto lendo, ferveu um VHS antigo da coleção Folha de cinema, devia ser Lanternas Vermelhas ou Indochina. Fez o ponche, duas garrafas de vinho, duas maçãs, cravo, canela, mel, vodka.

_ Deixa eu tomar um gole dessa bagaça pra ver se ficou bom.
_Não, ficou bom, eu experimentei, deixa pra hora de assistir, não vamos queimar a largada.
Todo mundo já tinha visto o episódio, iriam rever juntos.
Luzes apagadas. Velas acesas. Cada um enche a sua caneca de ponche.

Beto olhava para cada um e ficava pensando:
_Porra, é um chá feito de fita VHS, é um tributo ao cinema, é a melhor forma de viajarmos e discutirmos depois, vai ser foda.

Estavam todos em uma roda no centro da sala. Levantaram a caneca.
  "Essa é a água e esse é o poço. Beba tudo e desça. O cavalo é o branco dos olhos e o escuro dentro deles"
Todos repetiam a frase em uníssono, como uma missa negra cinéfila Lynchiana.
Agora todos bebam.
Cada um virou o conteúdo da caneca ao mesmo tempo e se sentaram.
Beto deu o play no episódio baixado da internet.
A bomba atômica. Os vômitos. Os urros. Tudo se desintegrava. A parede suja de sangue. As cabeçadas na parede. A luz. Desliguem essa luz. O fogo. As velas derrubadas perto da cortina.
A casa em chamas. Os corpos pegando fogo.
Quando os bombeiros chegaram não dava mais tempo, todos estavam mortos, asfixiados, com os olhos abertos fixos na tela gigante.
O arquivo corrompido travou e a cena se repetia, os pixels se derramando e formando monstros ainda piores. Apenas se ouvia em um volume ensurdecedor:
_Gotta a light? Gotta a light?

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O tempo é uma velha decrépita



A noite era fria, congelante, daquelas que quem não fuma fica brincando de soltar 
fumaça pelo canto da boca, feito vapor.

No posto de gasolina não tinha nenhum frentista, todos escondidos, abrigados, encolhidos, fora de visão.
Comprei duas heinekens, paguei pela janelinha, bebi a primeira quase de imediato e fui caminhando para o bar 
com a segunda long neck na mão, parecia um daqueles velhos robôs dos antigos filmes, camadas de roupas e 
agasalhos e cachecol e touca, os olhos lacrimejando com o vento cortante.

Desci as escadas, em cada degrau havia uma vela acesa tremendo de frio. 

Um instrumento desafinado projetava notas quebradas e desfiguradas pelo ambiente, havia
apenas uma pessoa quase adormecida no balcão e um velho estático segurando um violão.

Pedi um bomberinho pro dono do bar, que sem abrir a boca colocou a mistura no copo e voltou a se sentar, calado. 

O tempo ali não andava como lá fora. 

Parecia que todos os demônios de todas as religiões marcavam encontro ali,
desde a eternidade.

Sentei-me e passei a olhar com um certo desconforto para a figura que arranhava as cordas.

De vez em quando alguém saía do banheiro sem que eu tivesse visto entrar, ninguém conversava, nenhuma palavra. 
As notas cambaleantes espantavam o silêncio como uma prece mal resolvida. 

Pedi outro bombeirinho e mais outro. 

Espremi os olhos, nesse momento toda a atmosfera ficou mais quente e um cheiro forte estacionou no ar. 

Uma névoa pesada preenchia cada minúsculo canto e uma pequena luz, fraca e tremida, se movia até o palco.

Nesse instante ouvi uma voz longíqua, como que saída de um antigo disco de cera, percebi ser Robert Johnson 
cantando Cross Roads blues,
o som parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo e em lugar nenhum.

Não saía dos alto falantes, apenas existia, flutuante. 

Aos poucos vi a figura imponente sentada em uma cadeira de plástico, o negro de aparência fantasmagórica 
dedilhava o violão envolto por uma aura amarelada e ao seu redor todo o peso de séculos desfilavam com gemidos abafados.

Olhei para os lados e todos estavam distraídos. 

A música foi terminando, o acorde final. Silêncio.

Pisquei por um instante e quando abri os olhos tudo voltou ao normal, aquela mesma figura decrépita que antes 
espancava o seu violão desafinado estava novamente sentada enganchando os dedos pelas cordas, as notas tropeçando pelo ar, 
o frio corroendo a alma.

Os demônios voltaram à sanidade por alguns minutos, subi vagarosamente os degraus, todas as velas estavam apagadas, 
ao sair pela porta avistei uma outra escada, essa nunca tinha visto antes, desci lentamente por ela, as velas 
todas se acenderam novamente, continuei descendo até chegar outra vez ao bar, ouvi os guinchos dissonantes 
do violão mais uma vez e os mesmos rostos  sem expressão, tudo acontecia exatamente da mesma maneira, 
até que decidi outra vez subir os degraus pra ir embora, vi as velas apagadas e na saída a mesma escada, o mesmo bar, a mesma música e a mesma noite fria.
O tempo é uma velha decrépita que guarda cabeças de peixe no congelador.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Um dia qualquer

_É por ali, senhor.
Ele começou a andar de cabeça baixa, contando os ladrilhos, 
cantando uma música mentalmente,seus pensamentos se embaralhavam como 
novelos sujos de lã.
Abriu a porta do quarto,havia apenas uma cadeira e um pequeno palco com 
um microfone.
Ouviu o barulho do ferrolho pesado 
fechando a porta do quarto atrás de si, lá dentro o silêncio era absoluto.
Sentou-se, fechou os olhos e esperou.Uma música começou a tocar baixinho, 
naquele pequeno palco surgiu um anjo, de auréola e tudo, as grandes asas
recolhidas atrás das costas, o terno impecável e um coque bem arrumado que 
lhe segurava os cabelos louros compridos.
Deu três pequenas batidas no microfone. 
O anjo começou a fazer um stand up improvisado relatando diversas passagens 
da vida do senhor que, incomodado, se apertava na cadeira. 
Desde a infância até a bebedeira da semana anterior, tudo virava piada. 
Os fatos mais tristes e as desgraças, as alegrias e vitórias, tudo era 
espezinhado e rechaçado e envolto em risos de claque, que envolviam o 
quarto como uma nuvem.
Depois de longas horas o anjo agradeceu, surgiram aplausos e apulpos, ele se 
curvou e se despediu.O senhor mal piscou os olhos e já não havia ninguém ali,
apenas  um leve perfume que passeava pelo quarto apertado.
Pela janela aberta via-se um campo deserto, apenas algumas árvores e nenhum 
ser humano, estava quente e o Sol se impunha como um peso sobre aquele
dia interminável.
O barulho da porta se abrindo o despertou do torpor._Pode sair, senhor.
Ele abandonou o prédio olhando fixamente para o papel que tinha em suas mãos,
até que tinha sido uma quantia razoável.
Caminhou lentamente até a sua casa, olhando para o chão, a cabeça pesada e 
o suor deslizando pelo seu rosto, com as costas da mão enxugava e tremia.
Depois da esquina, 
cruzou a avenida e continuou sem saber seu nome.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Mão ao alvo

Mãos ao alvo.
Guardando algum amarelado papel enferrujado destituído de valor na gaveta de baixo do criado-mudo.
Isso é tudo.
Teu ouvido um pouco desafinado enxerga poucos pontos luminosos energia estática terreno baldio da memória arquivo corrompido.
Abre a geladeira e ouve um estampido toca o último hit verão praia moda jovem e o fogão reacende antigos valores.
Teu único erro foi continuar vivo e eu nunca te dei nenhum conselho que eu quisesse praticar sozinho meus ouvidos doem
a parte mais incrível do dia e ainda é apenas janeiro talvez eu abra o jornal e te veja na primeira página e talvez não seja crime.
Mão ao alvo.
E saio para caminhar olhos pregados no horizonte invisível e a esquizofrenia impraticável do dia a dia me chama de canto e escolhe um caminho bem mais fácil para se ausentar por completo (ainda não vi o jornal de hoje, talvez seja tudo um sonho)
Saí para comprar cigarro e o quarto ficou vazio.
Não tenho saudade desse futuro de tijolos velhos e da pichação quase surreal dependurada no fio do poste  um par de tênis velhos a serenidade de se saber sozinho,ainda está cedo, talvez gaste todo o dinheiro que levo no bolso,talvez quebre alguns silêncios,talvez paire suavemente no alto de um edifício.
Estamos salvos por hoje.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sombras Complicadas

Sombras complicadas
Em um instante a biópsia intrincada de um sonho
E as estrelas morrem no escuro,uma a uma, chorando luzes tardias
A vida cheira as flores, sapateia no jardim de grama alta e
se deixa adormecer,eu sei de tudo nesse segundo.
Sei de cada célula do meu corpo assim como sei de cada galáxia mais distante.
Sei de cada acorde,cada nota, cada música e o silêncio perpétuo.
Sombras complicadas
Poesia soluçante
Uma viagem longa em um ônibus vazio
Deixo aos teus cuidados
Pode apertar a campainha quando quiser
Vou cochilar um pouco,me chame quando estiver perto.
Pé ante pé,uma caminhada às cegas,recostando-se nos muros,passando os dedos pelas folhas das árvores.
Sentindo o orvalho e o cheiro do dia que não nasceu.
Logo logo estaremos na cidade,e ali daremos as mãos em um beijo longo
e mais ou menos ao meio dia tudo vai voltar ao normal
O Sol no meio do céu,a lucidez no meio da testa,o sorriso no meio do rosto,um arco íris frio e congelado.
Não tenho fome,nem sede, nem frio, nem preciso de alma agora.
Tudo acelera desconfortavelmente.
Todas as portas irão se fechar, as luzes vão se apagando,restam apenas sombras.
Sombras complicadas.

domingo, 27 de novembro de 2016

O outro dia

E, assim que a calma se perdeu por entre as folhas secas da rua,
eu apenas parei e me vi refletido na poça de água transparente
que, ilhada entre o lixo do mundo, trazia em si um silêncio e um desbotar na alma.
Coloquei os ombros para cima, os olhos traziam aquela tristeza e desconfiança de quando é quase
meia noite e no dia seguinte vai se acordar cedo e com medo e ainda bêbado de sonhos e vinho.
Encarei por alguns segundos e senti a brisa fria de um abismo descascado no muro de uma frase
errada e tardia.
Assim mesmo preferi me sentar no meio fio e aos poucos me despedir de mim.
A Lua por enquanto era uma cúmplice calada.
Não houve dia seguinte. Nunca mais.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Caos

Aquela coisa em preto e branco desbotando na parede
encapsulada e embalada em papel brilhante
Poderia ser o tempo ou um quase nada reluzente
Poderia ser a eternidade soluçante
aquele ser sem casa e lamentavelmente sonolento
que tropeça em cada passo e sorri quando ouve o vento
que a cada uivo recupera uma pancada e um lamento
Um suburbano indiferente que ressuscita a cada dia em um passo lento
Na verdade a subida é íngreme
e olhar para cima alimenta a vertigem
A sensação é plena
Não existe a dúvida,nem a sagacidade enlevada
O que resta é um dia apocalíptico e milagroso
Onde as frestas do muro disparam casualidades
e eu abro a boca e consumo tudo
assim é o caos
E é aí onde quero morar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Por sob a ponte

Você apenas se encharca de toda a humanidade inflamável e chega bem perto do fogo.
Apenas levanta as mãos,faz uma pequena prece silenciosa e inócua.
Olha ao redor, sente o cheiro vazio de mil mentes inquietas e sonâmbulas.
Teus pés se arrastam vagarosamente,tua voz surda berra um grito disforme
É quase um chamado, um pequeno canto de uma sereia deformada.
E você acena para os deuses ali caídos,ensanguentados.
Você distraidamente apodrece enquanto fita o horizonte.
Ao teu lado descansam duas armas carregadas.
Teu cérebro anseia por elas, um imã.
É madrugada, é frio,a garoa flutua lentamente por sobre o trânsito.
Por sob a ponte um caminhante bêbado
Por sob a ponte a vida enclausurada
Por sob a ponte a morbidez de alguns segredos revelados entre um gole e outro.
Você caminha abruptamente.
Sobe lentamente a grade do viaduto.
Balbucia algum verso esquecido de algum poeta maldito.
E voa como um pássaro relutante.
Voa como um inseto de encontro a luz.
E teu nome ecoa em cada fresta da noite silenciosa.
Um minuto e tudo é sonho.
Você ainda vê a última gota de chuva.
Você ainda vê o vapor do asfalto quente.
E a palidez do universo tinge tudo de solidão.

Pessoas que aportaram por aqui: