sábado, 27 de outubro de 2007

Sonhos Artificiais

Não me censurem por desejar amores e estrelas,
e os enxergar em poças d'água sem fundo.
Não me espanquem com seus olhos,velhos conhecidos...
Masquei dissabores,lembrei de músicas apagadas,
Notas cruas de melodias inaudíveis.
Os vi,de longe,sombras descalças em ruas de pedra.
Os óculos na ponta do nariz,olhos vermelhos de ódio.
Metralhadoras de gritos e silêncios...
Não me provem que a dúvida é real,
Não tenho respostas,não me vejo por inteiro.
Crueldades,cálices de rancor sorvidos de gole em gole,
E um sorriso frio.
Na saudade improvável de mitos e Deuses
Sangrei colorido,
Em meus sonhos artificiais...

Silêncio

Em um sussurro silencioso,
mil asas sobrevoam seu olhar.
E a lágrima se suicida,pífia,por escorrer em tão belo rosto.
Dois dedos de saudade sem retorno(apesar dos avisos).
Sem sequer ter visto ou conhecido
Mais saudade sem fim, mais amor sem começo
E aquele triste soar de relógios,quase melancólicos
Um vento fino por sobre as árvores,e a imensidão dúbia do anoitecer.
Um beijo monótono,um morno abraço de adeus,um cruel fechar de olhos.
E eu ali em pé,morto de cansaço,as mãos rasgadas...
Como foi seu dia?
Silêncio
Nunca houve conversas,nunca houve bom dias...
E naquela porta que vc entrava,eu nunca vi
E naquele toca-discos,só a poeira do tempo a girar...
E naquele filme,só os atores a repetir as mesmas frases sem sentido
Um sentido que fugiu,com os segredos na alma...
De sentir saudade de quem nunca vi...

Pôr do Sol

O silêncio brusco,
Um desalento macabro
E a espera de mil anos condensados num suspiro e numa poesia mal feita
Liguei minha alma numa voltagem errada
e morri por alguns segundos.
Num sussurro inaudível te desejei boa sorte
e vc não teve.
Amarrei minhas lembranças ao pé da cama, e elas fugiram.
Te chamei, agredi meu espírito, pisoteei meus sonhos
e acabei voltando cabisbaixo pra dentro do copo sujo, onde bebi teu nome e vomitei amores.
A solidão se arrasta,mal acompanhada
A maneira quase idiota de querer de volta algo que não é meu
E um resquício de esperança aguarda, na fila, a hora de agonizar.
Sem malabarismos e sem crueldade,vejo por cima dos ombros, um pôr-do-sol.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Desvarios

Meus lábios mergulham num oceano de medo
sorvem meticulosamente cada átomo de dor
Provocantemente estúpido a ponto de perder o rumo
Permaneço sábio,sonolento e incrivelmente sóbrio.

Mudo,ouvi cada sopro de angústia
adormeci sereno em meio às explosões de sonhos
Então você veio e me pediu perdão
e eu pedi que você sumisse

Em meio à loucura obtive êxito
e subitamente mascarei a fúria
Me arrependi das palavras sãs
e chorei mantras sagrados

Morri nesse segundo,ainda respirando
E seus olhos ainda me fitavam
Acenei num sorriso trôpego
Maldizendo deuses e agradecendo ao infinito

E quando notei que te amava
as cores frias levantaram vôo
e as melodias tristes desbotaram
escorrendo,lindas,para o esgoto do céu.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Saudade

Sentado em frente aos seus olhos
Cuspia sentimento em tua cara
Metia o dedo em sua alma
Arrancava incongruências
Desatava nós de culpa
E você vomitava fumaça e indiferença
Palavras suadas
desabavam sobre um leito vazio.
te dei a mão...
Um vazio esticado no ar...
Um ódio quase celestial...
Sorvi aquele último afago,
Traguei aquele último suspiro.
A porta bateu desesperada
engolindo o silêncio.
A certeza me atropelava
Meu medo me tranquilizava
Sóbrio,sem sequelas,calado
E aquele último acorde
Soando até o infinito...

domingo, 29 de julho de 2007

Mergulhos da Alma

Um dedo toca-lhe a pele
Aperta temerosamente
Ele exprime um vício de linguagem qualquer
de dentro do prato sujo da alma.
_ Não cuspa_ repete-lhe a mulher
Ele engole inexpressivamente aquela migalha de sonho
Acalme-se...
Os olhos,lindos espelhos quebrados...
Estilhaçados.
Vomita as visões que lhe imbuíram
Maltrata a coragem de quem lhe enviou
E as asas à mostra comprovam isso.
O segredo, o sussurro,a revelação...
O medo sopra-lhe o rosto
Enruga-se,grita solenemente mil insultos.
As lentas chicotadas lhe castigam o dorso
As letras desviam-se da poesia
E cai sobre sua cabeça o desalento
A suavidade mórbida de se sentir sóbrio
em meio ao turbilhão de intensos mergulhos à deriva da alma.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Sonhos

Meu corpo nu,estilhaçando metáforas...
A desilusão me morde o rosto
A consciência sangrando
mil gotas de luz
se derramando.
Percebo seu rosto, seu sangue
sua vida,seus erros...
sua mão,sempre aberta...
o desespero quieto...
minha calma exasperada
defendendo minha alma de um perigo inexistente.
Cru e amargo
Engulo seco,procurando sentido...
Muitas vezes eu dormi, esperando a brutal entrega
dos sonhos
Pressenti a presença etérea de mil vozes cintilantes
flutuando por sobre odores infectos
gritando cores,triturando canções
Meu espírito nu,desbravando paraísos
Explode em minha face a transparência
Deito tranquilo por sobre esse espinhos
enquanto um corvo negro me espreita por entre as frestas da dúvida.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Desejos crus

Aquele acorde tímido
de um violão morto
e a voz breve e úmida
me traz um medo indecente
de morrer.
E quem nasce tem o desejo
inocente e pútrido.
Odeio seu olhar perdido
Meu amor irritante
Em mim vejo manchas de sangue
No espelho somente um sopro remotamente vago
de quem pertiu sem deixar saudades, ou dúvidas.
Nada no bolso de trás da calça,
nemhum cigarro na mão, nem dedos, nem acenos, nada
Aquela tarde sinistra e morna
O Sol escapando por sobre seus ombros
a beleza maldita de um entardecer qualquer.
Um sorriso desaba sobre a tristeza e a valida ainda mais
não subi essas escadas pra ver a paisagem,
nem pra me jogar.
Queria crescer, mas me cortaram as pernas.
Calei-me diante de seus olhos,e eles dispararam correndo por sobre a grama alta do meu pensamento, se escondendo,traindo, revelando.
Me dê a mão, me sonhe.
A solidão é pedra afiada sob a palma da mão
O sangue aquece, embora queime a alma com um leve beijo.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Poesia antiga

Brota em mim um suicídio em formação
Sonhos e devaneios de prédios e lagos
afogamentos e envenenamentos
Brota em mim um som de trovão e tiros
Raios e gritos,
explosões e enforcamentos
Rodas em movimento sobre o sangue seco no asfalto
Brota em mim um estranho ouvir
como se as vozes saíssem de mim e para mim voltassem.
Como se os sons partissem de mim para meu encontro
Brota em mim uma dança sinistra de movimentos lentos
À meia-luz essa dança se projeta em sombras pela parede
À medida que progride, lança pequenas luzes como se fossem raios
Essa dança inibe meus instintos e obstrui a fúria interna do querer fugir
Fazendo assim meus sonhos se desintegrarem e voltarem ao útero do inconsciente que os gerou
Brota em mim uma visão de olhos fechados
Numa imaginação quase real, sobre a mesa
Uma flor sem vida e seca, de qualquer cor, ùmida em todo toque, no contato de cada dedo.
Uma flor em preto e branco, molhada de suor
Brota em mim uma percepção quase espontânea
Um sentimento, um odor, um som,um gosto, uma visão
Uma realidade completa em cada centímetro de dimensão
Ruas surgem desviando e entrando em minha alma
Estou parado, elas é que partem em minha direção, me passando a sensação de movimento
Brota em mim um sonho em decomposição
Nuvens e relógios, em lados opostos
Um encarando o outro, sem minha presença.

Poesia escrita em 01-05-1997

sexta-feira, 15 de junho de 2007


Odair José é ,antes de tudo,um injustiçado,todos ouvem Roberto Carlos e se acham cult,mas falar no nome do Odair é ser automaticamente bombardeado com piadinhas e a indefectível canção "Pare de tomar a pílula" sendo cantarolada.Nascido no interior de Goiás, desde cedo se interessou por música e na adolescência formou uma dupla caipira com um amigo. Mudou-se para o Rio de Janeiro com 18 anos, onde trabalhou como cantor de boates suburbanas e circos, guitarrista de inferninhos na Lapa. No início da década de 70 começou a compor músicas baseadas no que observava na realidade dos inferninhos, bordéis e boates.Eu penso que há uma relação forte entre a música de Odair e os filmes da Boca do Lixo de são Paulo, ambos relegados à um nicho de pessoas que curtem filmes obscuros(a maioria curte também filmes de terror raros) Seu primeiro compacto, "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", falava de um homem apaixonado por uma prostituta, e tornou-se um de seus grandes sucessos. Logo, Odair José se transformou no maior ídolo da música brega, vendendo milhões de discos e emplacando hits como "Pare de Tomar a Pílula", (já antes citada)proibida pela censura. Em 1977 surpreendeu ao criar uma "ópera-rock", "O Filho de José e Maria", que é o disco que será comentado faixa à faixa.Um disco pra ser colocado ao lado de Sgt.Peppers, Their Satanic Magic Request, the Green Village Preservation Society e Pet Sounds.

O disco ficou conhecido como uma ópera-rock, ou também como o álbum progressivo de Odair José.

Minhas impressões(nada muito elaborado, fui escrevendo enquanto ouvia novamente)

1. Nuca mais

Nunca mais começa como uma trilha blacksploitation,uma letra que diz que ele aprendeu as coisas boas da vida, que o passado não o assusta.Um groove muito bom.


2. Não me venda grilos (por direito)

um samba grooveado,com uma letra romântica, com a sacada: "não me venda grilos, viver já pesa muitos quilos", um solo de gaita muito boa.Como disse alguém em outro blog, realmente ele tinha uma fixação por mulheres e filhos.


3. Só pra mim, pra mais ninguém

um começo singelo, a voz num reverb louco,a letra, um pedido deseperado pra "seu bem" não abrir a porta pra ninguém,na letra ele expressa o medo de ser traído,eximindo a mulher de culpa, pois o perigo está por aí, basta uma troca de olhar.


4. É assim

me lembrou Raul Seixas(não sei porquê), a letra é muito boa,o vocal é gritado por vezes,novamente um groove, a letra é meio esotérica(ou exotérica?),tem um solo de guitarra com wha-wha.


5. Fora da realidade

a mixagem da bateria é ótima(eu achei),solinhos de guitarra pontuando a música,sempre o anjo aparecendo nas músicas, e dizendo pra ele "aturar" a sua amada.uma interpretação gritada e apaixonada.Um bom solo de guitarra(esse disco tem vários solos),é um hardrockzinho.


6. O casamento

a faixa mais ópera-rock do disco, com começo no piano,com sinos e sonorizações,"quem são essas pessoas sacristão?", uma atuação magnífica,a letra começa como um diálogo entre ele e o vigário.Muito bom.Parece contar a história de Jesus(parece?).A música vai num crescendo,acabando com os parabéns aos noivos.


7. O filho de José e Maria

Uma ótima abertura com um piano,a letra falando sobre josé e maria(jesus?)cantada num tom melancólico, um coral muito bonito de fundo.


8. O sonho terminou

um começo psicodélico, com letra falando da humanidade de todos nós, a música é a mais "rock" do disco, com um reverb na voz,se fosse em inglês tinha gente cultuando por aí,um solinho de sintetizador, a melhor música do disco, com certeza.


9. De volta às verdadeiras origens

destaque pro baixo grooveado, a letra é a mais popular do disco, tem até uma segunda voz meio sertaneja,e uma orquestração bem disco numas partes.


10. Que loucura

é uma disco music das boas, começando com guitarra típica e bateria idem.

Trech de uma entrevista que vi no blog Trabalho Sujo, falando desse disco:

Foi quando eu fiz o disco O Filho de José e Maria e todo mundo disse que eu tinha ficado doido. Eu escrevi 24 canções que, na ordem, cada uma fala de uma fase da pessoa: a primeira é quando a pessoa nasce e vai até a última que é quando o cara morre, ou se entendeu. Disseram que era uma ópra-rock, mas eu nem sei o que é isso. A igreja não gostou, porque achavam que eu tava falando Jesus Cristo – e tem uma música que o cara fica doidão, outra que ele não sabe se é bicha ou macho. Mas esse disco não ficou nem 50% do que eu queria.Era um disco pra ser tocado em teatro, não era pra tocar num clube, pro cara ouvir enchendo a cara de cachaça, nem pra tocar numa praça, com uma mulher pendurada no pescoço. Fui trabalhar com o Guilherme Araújo, que era empresário de teatro. E vieram perguntar se eu não gostava do que eu fazia, se eu tinha vergonha de tocar a “Pílula”, que bobagem. Esse disco não foi vitorioso comercialmente, mas é um disco muito bem feito. E eu queria fazer um disco duplo, mas a Polygram não queria lançar, então fui procurar outra gravadora. Fui pra BMG mas quando cheguei lá disseram pra não fazer duplo.


De onde você tirou inspiração pra fazer um disco desses?

Duas coisas. Primeiro, o som: eu achava o máximo o som das guitarras daquela época, do pop do Joe Walsh, aquele disco ao vivo do Peter Frampton, aquela guitarra emborrachada, só ele e três caras de apoio e vendeu vinte milhões de álbuns. Então a idéia inicial era eu ter uma banda como se fosse de garagem. Eu montei essa banda, com uns amigos. Na época, eu tava muito bem de vida, tava solteiro, não tinha compromisso com nada, passava o dia na praia do Pepino sem fazer nada e pensei, “vou fazer uma banda” e fiz. A gente ensaiava lá no Vidigal. Quando eu fui gravar, o Durval Ferreira, aquele da bossa nova, começou a por defeito nos músicos: “Esses caras não tocam porra nenhuma!”. Mas a intenção era aquilo mesmo, tipo nos Rolling Stones, que aquele cara não é o melhor baterista, mas pra aquilo ali era ele mesmo!Depois, é a idéia do tema. Eu tava no Rio e fiquei chateado com uma situação e esse senhor, o Aderbal, que me levou pra falar com o Golbery, veio me perguntar o que eu tinha. Eu expliquei e perguntei o que eu podia fazer? Eu perguntei e ele saiu da mesa. Pensei: “Qualé a desse velho? Eu pergunto uma coisa pra ele e ele sai? Deve estar ficando esclerosado”. Deu uma meia hora e ele aparece com um livro na mão. “Você me perguntou uma coisa que eu não posso responder, mas esse cara pode”. E me deu O Profeta, do Kalil Gibran. Eu comprei e li tudo dele, achava o Kalil Gibran o máximo. E foi dali que eu resolvi escrever as letras do Filho de José e Maria, eu passava o dia inteiro trancado no quarto sem fazer mais nada, só tomando vinho e lendo aquilo. E aquilo virou uma bola de neve.E a partir desse disco, as pessoas começaram a fazer questionamentos sobre a minha competência pra vender discos, mas foi até legal, porque você ter a obrigação de todo disco ter de vender é uma bosta. Até porque você não consegue isso a vida inteira. E se você analisar, essa coisa de fazer sucesso, fazendo músicas direto, é um ciclo de sete anos. Pode ver, todo mundo, tem raras exceções, só aguentaram sete anos, pode reparar, Beatles mesmo: sete anos.

link pra entrevista completa:

http://www.gardenal.org/trabalhosujo/2006/08/oj_silva.html

link pra baixar o disco:

http://www.4shared.com/file/17350226/ce525262/1979_O_Filho_de_Jos_e_Maria.html

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Entrevista

Fora do circuito convencional dos cinemas, os curtas-metragens independentes formam uma importante parcela do universo cinematográfico. Através deles se despontam novos talentos, novas idéias e produções dos mais variados níveis. Em uma metrópole como São Paulo não é diferente, profissionais e novatos na área se aventuram em trabalhos cada vez mais chocantes e criativos. Esse é o caso de “Fetish”, o primeiro curta-metragem de Luciano Pires. Previsto para ser lançado em Setembro, promete agradar em cheio aos aficcionados do gênero de terror.

Cinema em Cena: Este é o seu primeiro curta-metragem. Fale um pouco a respeito desse trabalho.
Luciano Pires: É um thriller com muita reverência ao passado a memória televisiva e cinematográfica sob influência suprema de Argento. Trata-se de duas amigas que se encontram num bar e decidem brincar com fetiches e não dá muito certo. Cogitei a idéia do curta através de uma conversa por MSN e pensei em escrever um conto. Escrevi, e como não tenho saco pra formatar um roteiro, enviei pra um amigo roteirizar, tudo sob minha supervisão, é claro. Feito o roteiro, procurei reunir um pessoal e lembrei de duas amigas que tinham vindo num projeto de cineclube que eu estava organizando e o Adílson, um amigo que me ajudou num primeiro projeto há algum tempo. Mas precisaríamos de duas atrizes e um ator e decidi chamar todos amadores. Na verdade, chamei quem tava na lista de amigos do orkut, e a equipe foi montada quase toda pela internet. Faltava locação, precisávamos de um bar e decidimos fazer num brechó que fosse bar também decidimos pelo “Túnel do Tempo” na vila mariana. O banheiro usado foi o da faculdade Anhembi-Morumbi, onde o Diogo estuda.

CeC: O nome é muito interessante e desperta uma curiosidade. Por que “Fetish”?
Pires: Comecei com alguns nomes que descartei por ter spoilers. Fiquei com um último que também entregava o que iria acontecer, então preferi a amplidão e todos os sentidos que essa palavra carrega e fiz um trocadilho com “she” (pronome feminino em inglês).

CeC: Como será a distribuição desse trabalho?
Pires: A princípio não pensei em distribuição. Vamos divulgar, fazer uma festa de lançamento e pensar nisso com calma. Gostaria que fosse distribuído, mas antes temos que editar o filme com calma e traçar um plano, talvez na Galeria do Rock seja uma boa alternativa.

CeC: Quais foram as maiores dificuldades para produzir o curta?
Pires: Negociar locações e tempo pra produzir e gravar. Dinheiro sempre é problema, mas soubemos resolver e gastamos relativamente pouco.

CeC: Quantas pessoas estão envolvidas na produção?
Pires: 12 pessoas diretamente envolvidas, mas tem trilha sonora, design e figurantes.

CeC: Geralmente, aqueles que produzem curtas de terror acabam caindo no estilo "Trash", você consideraria Fetish um curta"trash"?
Pires: Não, definitivamente, quero fugir disso. Gosto dos trabalhos do Petter Baiestorf e tal, mas não é o quis fazer, nem ser cerebral como os europeus. Algo entre as duas coisas.

CeC: Você acha que os curtas são mais bem recebidos pelo público do que anos atrás?
Pires: Acho que não. Hoje em dia é possível assistir curtas pela internet, mas no cinema mesmo está igual como sempre foi.

CeC: Quais serão seus próximos projetos?
Pires: Vou criar um roteiro em breve e participar como ator em algumas coisas, mas nada definido. O roteiro é sobre um grupo de colegas "cinéfilos", que acreditam ter descoberto um segredo em um filme obscuro e começam a sofrer as conseqüências disso (risos), não vou adiantar muita coisa.

Para saber mais novidades sobre o curta-metragem, participe da comunidade “Fetish” no Orkut.
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=28780013

A simpatia de São Paulo

_Oi
_Não gosto de conversar.
_Mas eu só te cumprimentei...
_Cumprimenta outro.

Madrugada

Me beija, disse o mendigo
pega as moedas, disse a gostosa
não quero dinheiro, quero um beijo
(o cheiro de sua boca lembrava alguém que tinha acabado de lamber o cu de uma vaca).
Não.
Me beija.
Vou gritar.
Grita.
A mão suja se esticou.
Pegou as moedas.
Passou a mão na bunda dela.
Sujo.
Puta.
O silêncio da madrugada gritou no peito
uma moeda caiu
No bueiro
Ele chorou baixinho
No dia seguinte, morreu de frio
Debaixo de um toldo
Na vitrine, um anúncio do dia dos namorados.

Vingança

A faca cravada no peito
Seminú, se arrastava pelo asfalto
Lembrei da cena do Juventude transviada
mas era ali na minha frente
e não tinha a jaqueta vermelha do James Dean.
Eu tava no ponto de ônibus
Vestido amarelo.
Tua mulher te traiu?
perguntei pro morimbundo
Arrrrrgh, disse o filho da puta
Cuspiu sangue.
Tinha ouvido a história,da boca da velha lá da rua
A mulher deu a facada
de ódio
de medo
de gratidão
Morreu ali,sozinho,desconsolado
não ajudei não
que morra,
quem manda ter pau pequeno.

Morrer

Morri dois dias atrás
mas não é igual a nenhum filme

...um branco infinito.

Sonhos

Metade das pessoas que ali estavam eu nunca tinha visto
Quem é você?
Tava passando e entrei.
No meu sonho?
É, por que?
Nada, que falta de privacidade...

Poema curto

Derrubei um alfinete
Criou-se um terremoto.

Medo de Palhaço

Aquele filme dos palhaços...
It?
Não, aqueles do outro planeta...
Killer Klows from outer space?
Sei lá, não sei o nome em inglês...
Palhaços Assassinos...
é, esse mesmo.
Quequitem?
Tinha um puta medo quando era criança.
Medo de palhaço?
é, tem um monte de gente que tem.
E como é que chama?
O que?
Medo de palhaço,palhaçofobia?
sei lá
Eu gosto é do Ronald McDonalds, aquele sim.

Grite mais um pouco, depois morra

Choveu fumaça no mar do meu pensamento.
Enevoou, escondeu,transformou tudo em ardentes solidões.
E nos meus sonhos, devaneios, algo estava morto.
O eco ainda é forte e inaudível.
O pó que de mim restou.
Dançante e musical
Meus braços ainda doem um pouco
Meus ouvidos estão afinados.
Grite mais um pouco e depois morra.
Aspire o silêncio e suma de repente.
Tudo me faz lembrar que Deus está morto.
Teu suspiro gira como uma flor do Sol.
Dança, faz-se crer com palavras deitadas em vis sorrisos.
Esse odor quase musculoso me nocauteia.
Meus ouvidos dormem abertos
Ouvem tudo em frações de segundo.
O eco ainda dá giros e giros em torno de minha alma
Claro, transparente,espacial
O eco, o eco, o eco, o eco…
Grite mais um pouco e depois morra.
Tão inaudível, milhões de decibéis desperdiçados.
Bailarino sem pernas e cego
Mutilado e sorridente
Tudo me faz violento, cruel.

Contículos

Você é um cabaço
bradou um moleque naquela fila fétida de posto de saúde.
Nem conhecia o fedelho
Dei-lhe um tapa na fuça.
tua mãe é que é.
Não tenho mãe, tenho vó...
Então pode ser,respondi
Fiquei com dó, mas só um pouco
O moleque era um filho da puta, mesmo sem mãe.
Tava lá sentado, esperando a porra da inalação.
O moleque não parava, pulava, corria, xingava.
Fui beber água, espirrou na minha cara, aquele bebedouro fedido.
_Cuméqiéteunome,muleque?
Zezinho.
De que?
Sei lá.
Então tá
Fui sentar
Na tv sem volume, Ana Maria Braga fazendo uma porra de uma receita.

Crônicas de um Mendigo Lunar com um microponto sob a língua, deitado sobre um Jornal dos anos 70

Estava deitado em minha cama na rua, de ponta-cabeça, lendo os poemas de Pessoa quando admirável e surpreendentemente avistei uma borboleta fêmea azul pousar levemente sobre o meu braço, (não me perguntem como sei que era fêmea, apenas sei) ela deu um sorriso engraçado, dançou uma valsa e morreu; não chorei, nessas horas deve-se manter a calma. Apenas senti uma certa tristeza, não é sempre que se conhece uma borboleta dançarina e quando a gente conhece ela morre assim, de repente, sem dizer adeus. A noite mal havia começado e eu tentava saber o que estava por vir, abri um livro qualquer, algo sobre o Egito e suas pirâmides, pensei sobre Adão, se ele tinha umbigo ou não, discuti um pouco comigo mesmo, fiquei irritado e me mandei calar a boca. Olhei para o lado e vi uma luz intensa, do meio da fumaça vi surgir um ser, era uma mistura de Alien, E.T, Pequena Sereia e tudo de pior já produzido pelo cinema ianque; ele girou o pescoço tal qual a menina do Exorcista e gritou como o Tarzã. Nessa hora eu imaginei que seria abduzido ou exterminado com sua arma de ultra-híper-super-eletro-laser, mas o ser olhou pra mim e deu uma risada esquisita como Lucille Ball, eu obviamente fiquei sem reação e ofereci uma Coca-Cola gelada, ele (ou ela, desta vez não tenho certeza), andando como John Wayne, disse que só tomava Fanta Uva, pediu um cigarro e disse que tinha que ser Marlboro, cruzou as pernas igual a Sharon Stone, deu uma tragada, soprou a fumaça como Marlon Brando e sorriu como Audrey Hepburn. Começou a cantar “Age of Aquarius” e a dançar a coreografia de Singing in the Rain, daí peguei meu revólver, dei cinco tiros e soprei a fumaça que saía do cano, chutei o cadáver pra ver se estava morto, mas ele levantou feito Jason, virou as costas e saiu falando sozinho como Woody Allen. Eu olhei ainda a Lua iluminar a poça d´água e bebi mais um gole de pinga, pisquei os olhos e vi novamente a borboleta, ela me deu um sorriso e acenou, eu acenei também e deitei novamente, li o Poema Tabacaria e guardei o livro, vi que a noite já estava acabando e fechei os olhos com um sorriso louco na face.

Luciano Pires

Their Satanic Magic Request

Solto uma gargalhada tensa, olho para o alto do quarto e vejo a luz que emana do
espelho instalado no teto. O abajur que reflete o ambiente inteiro de espelhos é
de cristal, no formato de uma pirâmide. Há duas cadeiras de madeira e um sofá
velho se equilibrando sob uma manta xadrez, a estante aguarda os livros que
virão, por enquanto aguarda, ansiosa.
Na mesa há dois lápis e uma folha, um desenho abstrato está grudado na
superfície com uma fita, para não se movimentar enquanto se desenha, várias
folhas espalhadas pelo chão, brancas, breve espaço entre idéia e obra. No ar, um
intenso odor de incenso de mirra.
Na vitrola ouve-se o disco dos Stones, “In another land”, um som etéreo desvia
nuances de sonhos entre os vãos que sobram sem serem invadidos por papéis.
Eu rio ainda, nada nesta sala pode me atingir, rodopio feito um louco sem
esbarrar em nada, com os olhos fechados e um microponto debaixo da língua, meu
suor e minhas lágrimas que antes rolavam pela minha face, agora borram a máscara que
tenho no rosto tentando me esconder da multidão que enfrento, ora em sonhos, ora
em vida.
O fulgor das investidas de loucura que me invade faz do medo meu aliado. Agora
rio, descontroladamente.
A alegria que eu pensava encontrar dessa maneira se desfazia em segundos.Os
pássaros desciam lentamente e me tocavam com seus bicos sedentos, eu os
espantava. A música fluía solta, dançava com os desenhos e com todos os papéis
que sufocavam o chão da sala. O odor exalava ainda mais temor e eu me sentia fraco
e humano.
Abri a porta e descompassadamente me arrastei até a rua, peguei meu discman e
meu cd dos Stones,”On with the show’ tocava agora,andava desesperadamente como
se a rua é que deslizasse sob meus pés. Afoito, olhava para o céu, era uma
daquelas noites estranhas, um vento gélido, uma garoa fininha, a noite mais
escura do que de costume, talvez fosse a ausência da Lua. Era uma rua estreita,
de estreitos raios de luz listrando o solo sujo, a imundície dos mendigos e suas
barbas cheirando a álcool, levava nojo e também uma vontade de me juntar a eles.
Parecia que suas vidas eram livres, e pra ser livre era preciso não se prender a
nada, não possuir nada, pobreza, podridão, liberdade.Puxei um cigarro da
cartela, levei até a boca e suguei forte, traguei como um suspiro e soltei a
fumaça numa forte expiração, como se tivesse golpeando um oponente, como nos
filmes de Bruce Lee . Retirei de meu casaco um cantil de uísque e tomei de um
gole, o efeito do ácido bateu subitamente e o frescor da brisa me deu vontade de
gritar, de sorrir, pular e tudo que fiz foi me deitar e vomitar sobre a lata de
lixo onde minutos antes um mendigo encontrava sua refeição. A chuva persistia e
a cada nota um suspiro eloqüente se desenhava na garganta, mais um gole de
uísque, as ruas agora são largas, tão largas quanto o caminho dos fracassados.
Eu tinha algum dinheiro, entrei em um bar, me sentei ao fundo e pedi um copo de
vodka com gelo, olhei ao redor e as pessoas pareciam andar e falar no compasso
da música, “Citadel”, pareciam agir sem vontade própria, zumbis,chorando,
gritando, querendo fugir mas sem forças pra isso.
Um segundo, um gole de vodka, sai do bar,uma caminhada e eu já parecia um
estranho, um alienígena, como sempre fui e como sempre me senti. “In another
land”.As estrelas pareciam se soltar do céu e dançar, pulavam, tremiam,
iluminavam com suas luzes pálidas,as sombras das árvores eram sonhos desfeitos,
sonhos mentirosos, tomei um novo gole, acendi outro cigarro. Caminhando ainda,
trôpego mas consciente, as imagens pareciam brincar comigo, postes altivos e
ameaçadores, sombras temíveis que se erguiam e me olhavam , a rua, a
calçada, as poucas árvores espalhadas no caminho aparentemente infinito eram
como fantasmas errantes, pousados tristemente sob uma realidade confusa,cada
passo era ao mesmo tempo uma despedida e uma saudação, camuflados, sutilmente em
meio as notas loucas .”She’s a rainbow.
Caminhei de volta pra casa, entrei e fechei a porta, fui andando lentamente de
volta ao meu quarto, a vitrola já havia parado, coloquei novamente o disco
“Their Satanic Magic Request”, mais um incenso de mirra, mais um gole de uísque,
ainda sentia a vibrante sensação do ácido lisérgico correndo entre as idéias
enevoadas do meu cérebro.
Deixei a porta do quarto aberto, pois queria fugir quando quisesse, sem precisar
abrir portas,(embora não fugisse nunca).
Sentei na cadeira de madeira, ria como se fosse morrer se parasse, meus olhos nem
sequer piscavam, o riso aumentava de ritmo e de volume, vi um homem em minha
frente, mas notei que não era bem um homem, era uma divindade, e não notava que era
isso que me fazia rir, eu o olhei pela segunda vez, já o tinha visto antes,da
primeira vez quase morri.
Esse Deus que me encarava era um vulto etéreo, dizia frases incompreensíveis e
isoo me apavorava, tentava compreender as palavras, os ruídos e os gritos que o
vulto exprimia, mas meu estado apenas permitia que eu risse. Peguei a pirâmide
de cristal e quebrei violentamente no chão, ainda rindo, quebrei os móveis, tudo
que estava no quarto e ri ainda mais forte, arfando e tremendo.Deitei-me no
chão, sobre os destroços e vi o teto do céu através do teto do quarto, vi
estrelas,Luas e noites, todas dançando e cantando, tocava “Gomper”, (o
finalzinho),o começo de “2000 Light years from home” me assustou, as estrelas
riam do tempo e das mentiras.As luzes fulminavam meus cabelos os fazendo brilhar
como vagalumes, isso fazia de mim um arco-íris vivo, pois meu cabelo reluzia
com as cores do arco-íris.
A cadeira era o único móvel que ficou intacto na sala, e isto porque milhões de
borboletas estavam lá sentadas, me olhando como se eu fosse um ser estranho e
esquisito. Olhei pela janela e vi que as flores se mutilavam no jardim, se
regavam e se colhiam, enquanto isso eu tentava tapar minha boca para parar as
risadas, mas nunca conseguiria parar.
Os livros aterrisavam na estante, eram negros e com muitas páginas, não haverá
leitores, mas eles se contentarão em ser livros negros e com muitas páginas e
informações. Um pássaro veio voando com uma coroa brilhante em suas garras. Eu
ria ainda, sabia que não ia parar e isso me fazia rir mais ainda, ergui minhas
mãos aos céus entoando preces insanas e revoltadas, traindo meu próprio
compromisso de me calar, calar minha alma. Fazia preces em pensamento, porque
minha boca apenas ria, meu corpo apenas se movimentava no ritmo do riso
desenfreado, meus músculos vibravam, como se fossem cavalgaduras de uma vontade
desconhecida.Novamente as borboletas voavam descontroladas, na chuva que agora
caía. Eu paro de rir, não sei como, mas paro.esqueço meu riso e me lembro das
lágrimas, esqueço de tudo que passei e vivi. As nuvens esperam os suores frios
do ar,querem também cair com a chuva fria, apenas para tocar em meu corpo e
sentir minha saudade. Todos os sonhos foram destruídos, resta apenas sua cadeira
e sua sala coberta de cacos de espelhos. Já não sei quem sou, se sou algo que se
pode tocar, ou uma daquelas milhares de imagens que jorram de cada minúsculo
pedaço de espelho que está caído no chão.Não me assusto mais com os
trovões,somente vejo minhas mãos, marcadas e meus olhos refletidos, meu
rosto que nem mais meu é, mas que já me acostumei como sendo.
Queria voltar para meus sonhos, mas é tarde demais, as ruas foram fechadas e
destruídas, as frestas já não são grandes o suficiente para suportarem gigantes
com saudade.
Muito tempo se passou desde então, já me senti muitas vezes assim, já voltei aos
meus sonhos, sempre volto, já morri muitas vezes e muitas vezes renasci.
O dia agora se apresenta diferente, o Sol brilha como se pudesse fazer mudar
toda a história que já viveu, a manhã é linda , mas tudo é igual e triste, os
signos teimarão em representar sinais que terei que decifrar, mesmo sendo
sufocado pelas risadas, que voltam sempre, cada vez mais atormentadoras.
Quero mesmo é saber se me encontrarei novamente ao alcance desses estranhos
seres e acontecimentos, cada vez que ouvir o mesmo disco dos Stones, saberei
somente quando puder ver através dos espelhos.
Meus pés me farão deitar de cabeça pra baixo na cama improvisada de certezas,
mas ainda assim me levantarei e direi que a cadeira é mais confortável.
Estou sorrindo, sentado de mãos erguidas, fazendo movimentos de bater palma,
expressão de felicidade, embora pareça triste.
Chega de risos e mentiras, já me cansei de minha máscara e de meus ruídos, já me
cansei, meu corpo está caindo, o abismo abre os braços pra me receber,sem meu
riso franético não sou nada, sem minha máscara e minha tristeza posso ser
enterrado, sem lágrimas , sem remorso, tudo segue seu rumo. “In another land’.

Luciano Pires

Poesias


Precipício

O sangue jorra incessante pelos olhos,
Um brilho vago de canções eletrocutadas faz da noite um contraponto à gritaria surda dos raios de luar.
Morbidez nos lábios sem cor,
Vermes nas narinas em fogo.
Cadavérico e flácido,
Não tenho mãos pra me agarrar.
Estático, pálido,
Tudo se fragmenta em rancor por sobre mim.
Tudo agoura sob o teto negro.
Mil imagens se entrelaçam na frase que morre.
Fictício e real,
Vivo e putrefato,
Ainda raciocino em meio à grama alta da confusão que me aflige.
O precipício se encontra ali, profunda e indubitavelmente mortal.

Dor contínua

Uma dor contínua e latejante crava-se em minha carne.
O espelho reflete as lágrimas que perdi no tempo.
Dor contínua.
Mil pirâmides brotando do asfalto.
Vermelhas, quentes,flamejantes.
De vez em quando a morte sorri,
Um esboço malfeito de um sorriso rude.
Podre e irônico.
Quase perco os pulsos e nada se ouve
Quase perco os pulsos
Quase.
Mesmo agora sinto frio
Como se fosse um inferno gelado criado por mim
Almas perdidas no âmago sem luz do lado esquerdo da minha alma.
Um medo de carne e osso.
Dor contínua.

Lua apagada

Armei-me para a guerra.
Suavizei os temores,senti menos medo
Nada disso me fez sentir me forte.
O céu caiu em pedaços sobre minha cabeça.
Os diamantes me enterraram sob o peso de sua consciência,
Os diamantes frios.
Mal dormi essa noite
Pesadelos.
Chorei sangue,chorei pedras,chorei signos.
Nesse dia a Lua iluminou mais devagar
Quase apagada.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Dor

Sinto uma dor extrema
Quase um edema
cerebral.
Uma dor constante,maligna,quase digna
de suicídio.
Quando ouço aquela voz por detrás da porta,
a voz de uma morta,
antes do dia nascer,
sinto meu cérebro arder na ferida doce de não crer em nada e nem sequer existir.
A sombra louca de um fantasma surge na palma da minha mão
Num preto e branco sujo.
Eu me escondo e fujo sem olhar pra trás,vendo a eternidade babar de desejo.
Sou cúmplice da desgraça que escondo,embora nutra esperanças inconfessáveis.
Sinto um último suspiro, no recôndito do peito e já não sou pele, nem sangue,
uma carne vendida e prestes a deixar uma marca no chão.

Poesias Obscuras inspiradas em Argento


A DANÇA DOS SERES SOLITÁRIOS
Violentos devaneios me atormentam.
Solitário,nego que morri.
Você dança suavemente por entre as árvores, sem sentir o desespero.
Te olho de longe, você dispara seus sentidos, o som atravessa o espaço e dorme no fundo da alma,transparente.
Mudo, me vi correndo sem destino.
Asas negras movimentando o ar, nuvens cinzentas demolindo o silêncio.
Mais um passo mal ensaiado, mais uma queda.
Fiz bem em dormir de olhos abertos e ouvidos atentos, milagres não acontecem.

A ÙLTIMA NOTA DO PIANO
Ele entra meio torto, desabando sobre a porta, entortando a maçaneta, sonhando com a forca e o pescoço sobre a mesa.
Diz uma palavra sem sentido e espera que entendam, sussurra fétidos poemas de amor e derrama o último gole de vinho.
Destrói o último gesto com urros silenciosos e preces.
Exorciza a calma que expressa em seus olhos pútridos.
Ele mexe os dedos, revira os olhos a procura do último suspiro de loucura. Inveja as cores e a luz fria do teto, se pendura na corda invisível e morre lentamente.

BIOGRAFIA DE ALGUÉM QUE NÃO NASCEU
Vejo agora o sangue que escorre e mancha o asfalto.
Quis me esconder entre as sombras, preso ao pé da cama.
Espero não ter te magoado.
Te dei um caminho, você escolheu outro.
Vou hipnotizar meu reflexo no espelho.
Chuva grossa nas pálpebras fechadas.
Me diga que seus olhos estão abertos. Odeio pensar que quando te toco você não percebe.
Sua vida não pertence a você nem a mim, nem a ninguém.
O medo me tranquiliza, o brilho da faca.
Te acaricio devagar, o vermelho me molha, aveludado e morno.
Um sussurro desfaz o branco silêncio de mil vozes surdas. Me arrasto em direção ao nada.

DESGOSTO
Derramei meu sangue pela escada.
Duas frases curtas e um ódio eterno.
Beijei aquela frase,daquele livro empoeirado e senti o gosto imundo das lágrimas.
Extremamente doce é a voz poderosa do destino.
Prostei-me perante um ridículo átomo de memória.
Sumi, desvendei o segredo e não aprendi nada com ele.
Você apertou minha mão delicadamente,não tentou ser sutil nem agradável,nem tentou me dizer nada da tua vida.
Derramei minhas lágrimas pelo carpete e o sangue pálido gelou minhas veias,dormi silenciosamente.
Só quando disse adeus você me entendeu e quis consertar o que quebrou,mas era tarde e tudo foi morto por uma mão pesada e febril.
Você deitou por sobre o tapete,um fio vermelho escorrendo pelos lábios,a mão no coração sangrando no peito aberto pelo punhal.

LUA CEGA
Embriagado pelo véu transparente e sinistro, o encantamento se dilui no espaço.
A esperança rapidamente escapa por entre as nuvens.
Naturalmente angustiado, prevejo minha própria morte, sereno, tranquilo, sem antes me despedir.
Um funeral sem nome,dois amigos e uma vela.

NÃO QUERO SER DE VANGUARDA
Não deixe seu túmulo vazio, se deite de vez em quando.
Centenas de páginas em branco pra tentar explicar o nada.
Enquanto o filme roda, meus olhos voam pra longe.
A fotografia em preto e branco de repente se colore.
Tudo escorre violentamente, enxurrada de dores, você está acordado?
Faz uns dois anos que não durmo.
Me enganei mais uma vez quando virei a esquina, aquela luz gritando de novo em meus ouvidos, cinzas se derramando nos corpos nus.
Não diga que não avisei.

NO SILÊNCIO SE ENCONTRA A DÚVIDA
Me despi em dois segundos e fiquei sem memória.
Respondi as peguntas que não me fizeram e quando fiquei sozinho tive minhas próprias.
Sorri por um instante e me dediquei a espreitar por entre as frestas da mente, procurando por uma estupidez qualquer.
Duvidei do silêncio, ouvi o ruído espasmódico da tristeza.
Me vesti em dois segundos e lembrei de tudo.
Decidi guardar certos papéis, escrevi meia dúzia de cartas, conversei com algumas pessoas, pulei o muro do vizinho e o matei a pauladas, sem sangue nem crueldade.
Maravilhosamente.

Poesia Obscena do 5º Milênio


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