quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sombra

Tua sombra presa na gaveta
e tão cinzenta quanto a solidão
teu medo e um pouquinho de razão
desesperada na certeza bêbada de caos
e um cinzeirinho no canto da sala.

Acendo mais um.
outro gole tímido
teus olhos percorrem meu medo
e eu me sinto assim quase fumaça...
mas faça
se tiver de fazer, faça.

Ainda pretendo dormir no teu colo
te olhar de lado
te entender mesmo sem querer
e te buscar quando você se perder.

Teu segredo tão bem guardado
quase percebo
quando você grita tão alto
Que teu mundo acabou.

queria

queria ter mais tragédias pra contar
mais perseguições
traições e amores
mais erros
bebedeiras e overdoses
mais incapacidades
mutilações e surras
mas estou aqui
nítido e pálido
sem erros maiores
impoliticamente correto.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lembranças

Amor é pedra tosca recheada de erros
Sublime e lascada
feito diamante bruto rolando a ladeira dos sonhos
e aquele olhar esguio meio com a cabeça inclinada
que você disparava
dói aqui dentro do peito
a lembrança de mil coisas desperdiçadas.
Amor, quando você tropeçava na vida
Na calçada encharcada de lembranças
e , eu ,tonto de nada
prevendo a poesia que faria quando te perdesse...
Não é quase dia agora, é chuva e rima e noite
e uma lágrima pendurada no cabide da dúvida
aqui, bem guardada no sujo leito de certezas mal dormidas.
tenho medo de beijar a cidade de noite
e ver a garoa gritando
e ainda pensar em você.
Mas assim desse jeito sou eu,vivendo
quase analítico
pouco filosófico
poesia mal-feita e quinzenal
No espaço que me deram...
E um samba na vitrola quebrada...soando desespero.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Tudo é relativo

Começo dizendo que corro o risco de parecer patético e idiota com esse post, um daqueles lunáticos paranóicos que pensam que encontraram a iluminação e que quando vão expor em palavras o insight incrível que tiveram, as palavras jorram desconexas e sem sentido.
Por esses dias ando pensando, remoendo, mastigando,ruminando teorias e pensamentos que me assolavam no período da juventude e que agora, como fantasmas, me atormentam e me seguem como sombras inquisidoras,como se me perguntassem a todo momento se eu estou seguindo aquilo a que me propus, a linha de raciocínio e de vida que jurei seguir quando me tornasse adulto . Lembro-me de quando jovem ter a exata e clara noção de ser único e especial. Raul Seixas e sua sociedade alternativa bradavam sempre:faça o que tu queres, há de ser tudo da lei, todo homem e toda mulher é uma estrela.
Enfim, sabia sermos únicos, e que aprendemos, nos construímos , escrevemos, lemos, trabalhamos , pensamos de uma maneira única e pessoal, intransferível.Assim como não existem duas digitais iguais, não existem dois seres humanos idênticos em sua complexidade.Bem, essa introdução é para dizer que :
O mundo é um caos, senhores.
Lembrem-se disso sempre. Não me olhem com essa cara de “esserapazestáloucoouestáusandodrogas”,sim sim sim, o mundo é um caos, sempre foi e sempre será. Nós,homens,tentamos organizar esse caos de um modo superficial e maníaco,10% da humanidade está trabalhando duro de modo a mascarar e enganar os outros 90% por cento, que ainda por cima defendem com unhas e dentes o direito de serem enganados. Eu não estou falando de Roswell, nem em nenhuma teoria conspiratória, nem no assassinato de Kennedy ou alienígenas vivendo entre nós. Estou dizendo que vivemos no caos . Mas e se disséssemos para todos desde a mais tenra idade que tudo é o caos? Nós precisamos,é imprecindível desde o início,empacotar, rotular, engavetar,criar metodologias,para explicar o inexplicável e educar à todos segundo esses princípios. Tudo é relativo, tudo é equilíbrio, há poucas perguntas que não podem ser respondidas com “depende”. Eu devo ser materilista ou espiritualista? Devo gostar de dinheiro e luxo ou dar valor as coisas pequenas e simples? Devo trabalhar mais e ganhar mais ou trabalhar menos e gastar menos e ter mais tempo? Devo ser rude ou educado?Bruto ou sensível? Devo estudar o máximo ou me divertir? Ser responsável ou inconsequente? Adulto ou criança? Pois bem,depende. Depende de que? Do momento. Grande resposta, ninguém passa de ano com essa resposta, ninguém arranja trabalho, nem namorada, nem consegue coisa alguma com esse tipo de resposta. Bem, pergunte ao seu professor. Ele não tem lá muito mais certeza das coisas do que você, nem o teu chefe tem lá muito mais domínio sobre as coisas do que você, mas eles estão lá pra manter a ordem, pra segurar as rédeas do caos.
E como tudo seria passado de geração para geração sem ordenar isso, sem pôr ordem no caos? Sem metodologias inventadas pra explicar o que não se pode explicar? Usemos como exemplo uma teoria organizada e regrada ,tomemos a gramática como exemplo, aí pegamos um fenômeno que se repete mais de uma vez, se isso se repete em um número considerável de vezes já se torna regra. Mas e se nos depararmos com algo que contrarie essa regra?
Joga-se na gaveta da exceção. E assim, dessa forma, cria-se todas as metodologias e somos ensinados e educados e “aprendemos” tudo. E nada tem um raciocínio muito lógico,a não ser dentro desse mundo inventado de regras e exceções.
Bem,vamos respirar um pouco.
Obviamente,se todos chegássemos a essa conclusão, o mundo tal qual conhecemos acabaria, e de um modo ou de outro estamos enredados nisso e nunca sairemos. O governo(pronto, aí é a hora que todos sorriem e dizem: è tudo culpa do governo)possui regras muito bem formuladas para nos enganar e domar o caos, mas contra o governo nada podemos fazer, certo? Temos a polícia para coibir . Mas existem regras muito mais invisíveis.O consumo desenfrado de bens, a invenção da necessidade, a moda, tudo tem que aquecer a economia , que tem que girar para que as empresas lucrem e paguem um mísero salário aos funcionários, e o governo também compactua com isso, compramos mais celulares(mesmo que não saibamos para que servem todas as funções) mais computadores e mais roupas(porque alguém disse que as nossas não estão na moda), e quem dita a moda? a Tv, a publicidade. O motor do sistema é o consumo. Seis meses após a venda tudo é descartado. Vira lixo.
E um dia o planeta acaba.
Tudo é caos,( meu texto segue o mesmo ritmo,espero que entendam como uma analogia forçada).
Nós olhamos para um lado e para o outro e não vemos resposta pra nada.(Aí obviamente um religioso vai gritar alto que a saída é Deus e a religião) Algo tão misterioso e inexplicável. Bem, misterioso e inexplicável por misterioso e inexplicável eu ficaria com o que já tenho.
Olhe com desconfiança para tudo, espie, leia, contextualize, exponha, discuta, prove, informe-se, analise, crie, viva...e quando alguém te disser que és incoerente, encare-o e diga: Tudo é relativo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Escolhas, Motivações e a Vida

"Marketing de criação de necessidades. É o nível mais agressivo de marketing, pois é o esforço que leva a empresa a lançar um produto jamais solicitado"

Sempre tive um pé atrás em relação à literatura de auto-ajuda e à palestras de motivação.
Trabalho com vendas e ontem houve uma dessas reuniões para que uma pessoa que trabalha na matriz viesse nos motivar, dizer por qual motivo devemos vender mais,pra ganharmos mais dinheiro e conseguirmos mais coisas e que estamos perdendo tempo e somos burros por não estarmos nos esforçando pra vender. A primeira pergunta é sempre: Você tem sonhos,não tem?
É uma pergunta chave, extremamente capciosa,pois todos temos sonhos, sejam eles quais forem, mas a resposta subtendida é que temos que trabalhar mais e vender mais pra conquistar esses sonhos, como se nossos sonhos fossem sempre adquiridos através de mais dinheiro.Errado. Esse é o princípio da criação da necessidade,que está implícito no meu ramo de atividade, que são as vendas de eletroeletrônicos. Nesse ponto peço licença para introduzir, como ilustração do que digo, um trecho extraído do filme Trainspotting:

“Escolha uma vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma merda de uma televisão grande, escolha máquinas de lavar, carros, CD players e abridores de lata elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo, e plano dentário. Escolha prestações fixas para pagar. Escolha uma casa para morar. Escolha seus amigos. Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine. Escolha um terno feito do melhor tecido. Escolha se masturbar e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo. Escolha sentar no sofá assistindo programas que nada te acrescentam, game shows, estufar-se comendo um monte de porcarias. Escolha apodrecer no fim de tudo, numa casa miserável, envergonhando os pirralhos egoístas que você gerou para te substituírem. Escolha seu futuro. Escolha sua vida.

Enfim, o mundo é feito de escolhas, e porque alguém inculca em tua cabeça as escolhas que você deve fazer? Quem é que sabe o quanto você deve trabalhar, o quanto você deve comprar, teus sonhos ,tuas necessidades?
Tenta-se criar uma necessidade (sonhos), que na verdade não são sonhos, são desejos e desejos diferem de necessidades,pois comer, vestir, morar são necessidades, um carro veloz, tevês gigantes e celulares caros que não usamos nenhuma função são desejos.
E isso tudo é introduzido em nossa mente sem percebermos, em todos os níveis, não só nessa palestra “motivacional” da empresa, onde não se analisa falta de estoque, preço alto, baixa flexibilidade na margem de desconto,concorrência, mesmo sabendo que o mercado anda em baixa,e mil empecilhos factíveis,nada se analisa.
Apenas nos envolvem numa bolha, criam uma necessidade e empurram goela abaixo.
(Desculpem-me pelo caos do texto e pelas divagações,estou lembrando pouco à pouco tudo que remoí de pensamentos voltando pra casa nesses dias de vendas, leituras,filmes e conversas.)
Cada vez mais se trabalha mais pra ganhar mais dinheiro pra tentar suprir uma necessidade que não temos. Lembro de uma citação acerca do computador: “O computador foi inventado pra resolver os problemas que não tínhamos antes dele”.
E daí você faz hora extra para ganhar mais dinheiro porque tem um filho e fica mais tempo longe do teu filho porque quer dar um brinquedo de controle remoto que ele vai enjoar em dez minutos e fica afastado de casa, sem ve-lo, sem gastar teu tempo com ele, e trabalha mais pra dar “uma vida melhor” pra tua esposa e fica sem final de semana para passar com ela, e não vai ao cinema, não vai à shows, não se diverte porque precisa de dinheiro para pagar contas de necessidades que você mesmo criou, e vive em função disso pra quem sabe um dia aproveitar a vida.
Eis outro texto de outro grande filme:Clube da Luta

“Eu vejo aqui as pessoas mais fortes e inteligentes. Vejo todo esse potencial desperdiçado. A propaganda põe a gente pra correr atrás de carros e roupas. Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis. Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Guerra Mundial. Nós não temos uma Grande Depressão. Nossa Guerra é a espiritual. Nossa Depressão, são nossas vidas. Fomos criados através da tv para acreditar que um dia seriamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock. Mas não somos. Aos poucos tomamos consciência do fato. E estamos muito, muito putos. Você não é o seu emprego. Nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco. Nem o carro que dirige. Nem o que tem dentro da sua carteira. Nem a porra do uniforme que veste. Você é a merda ambulante do Mundo que faz tudo pra chamar a atenção. Nós não somos especiais. Nós não somos uma beleza única. Nós somos da mesma matéria orgânica podre, como todo mundo. Escolha não ter uma TV grande nem baixo colesterol nem um abridor elétrico de latas nem plano de saúde e dentário e muito menos uma casa de dois andares numa rua arborizada e filhos que só tiram A+.
As coisas que você possui acabam te possuindo. Você só é realmente livre após perder tudo. Pois ai nao terá o que perder, e, enfim, encontrar-se-á livre”.

Enfim, espero ter dito de maneira clara o que estava martelando dentro de mim esses dias, pena que talvez meus amigos que trabalham comigo não tenham acesso a isso(talvez eu imprima e leve para eles)
Escolha viver.

domingo, 29 de agosto de 2010

Abaixo às convenções

Uma das melhores coisas de se tornar adulto é se livrar de certas coerções sociais que
existiam quando criança,como ser fantasiado de caipira nas festas juninas(com direito a
remendo nos fundilhos da calça,bigodinhos e sobrancelhas feitos de carvão e dentes pintados
para parecer banguela),admitam,não era divertido, e ainda existia sempre a menininha esnobe que
todos os meninos queriam que fosse o par na dança da quadrilha, o que invariavelmente não
acontecia, e ela sempre era a noivinha e sempre o menininho mais esnobe era escolhido para
noivo, enfim, esse preâmbulo todo é pra explicar que agora como adulto, (e isso é uma
condição privilegiada) me dou o direito de não fazer o que não quero, isso muitas vezes é
visto como comportamento egoísta e antisocial,Pois bem, para essas pessoas tenho somente
uma palavra: Foda-se.
É convidado para uma festa e toca funk,todos vão dançar, te chamam, você olha para um lado
e para o outro, fica tentado a dizer que não vai fazer papel de palhaço, mas todos te olham
como se você fosse o ser mais sem graça e chato e egoísta e antisocial do universo, pois
bem , diga não,você agora é adulto,anos de trabalho, independência financeira, desgastes
da vida, relacionamentos malfadados te deram o direito de dizer não,sem peso na
consciência.
Eu também me dou o direito de não gostar de coisas que todos gostam e de gostar de coisas
que são consideradas bregas,quando tinha doze anos eu era roqueiro doidão e ai de mim se admitisse gostar
de Elton John, em detrimento dos Irons Maidens e Metallicas.Hoje em dia,gostar de filmes ruins,e
filmes românticos e não ir em festas pra ficar em casa assistindo Weeds,não cumprimentar
com beijo aquela mulher feia que trabalha comigo, não conversar com visitas chatas,não
conversar com pessoas no ônibus(ainda mais quando estou ouvindo Nerdcast no I-pod)tudo isso me dá um ótima sensação.
Abaixo as convenções sociais, viva a individualidade.Diga não quando quiser e sim todas as
vezes que te der na telha,chupe sorvete no frio,dance na rua sozinho, fale o que tem de
falar para quem quer que seja,não faça o que tu não quiseres, há de ser tudo da lei.

sábado, 14 de agosto de 2010

Sobre Poesias

Minhas poesias são melancólicas porque minha vida é alegre,isso é um contraponto existencialista...
Conheci mil pessoas que escrevem com um otimismo absoluto e são extremamente tristes e desesperançosas. Existem exceções,mas a maioria escreve apenas pra sublimar.
Na verdade considero poucas as boas poesias com traços otimistas,todos os meus ídolos na escrita são melancólicos.Não produzo muito quando estou triste. Eu escrevo o que quiser, independente do que estou sentindo.
Nada mais perfeito que a frase de Pessoa: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem... isso é genial. Decodificar, se emocionar,isso quem faz é quem lê.
É ilusão achar que você toca alguém com rabiscos de letras ordenadas,
o leitor é que tem dentro de si um repertório, inspiração é extremamente relativo.
Nunca vai se saber o que foi escrito com inspiração e o foi escrito com técnica, isso se confunde e quem lê é que vai decodificar isso.Existe um vocabulário e
nós buscamos ordenar as palavras para que elas digam o que queremos passar
e isso pode acontecer a hora que nós quisermos,inspiração é apenas detalhe
,ninguem sabe exatamente explicar o que é inspiração
Inspiração talvez signifique algo que desperte os sentidos,os sentimentos e repertórios e tudo que você já guarda dentro de si, mas a decodificação disso, a transformação em palavras é feita através da técnica, e por isso não acredito no poeta mítico,poeta captador de sentimentos, antena parabólica de sentidos...não creio no poeta como alguém que sente mais ou melhor que os outros, ele apenas lida melhor com o código, que é a escrita, não há como saber se outras pessoas sentem melhor ou não, apenas talvez não saibam lidar com a construção da língua tão bem , e a isso se dá o nome de técnica...
Isso é lindo,a mitificação do poeta,devo dizer que gosto às vezes de alimentar essa idéia com relação à mim,mas a inspiração é algo que vem depois de você colocor a caneta no papel(ou os dedos no teclado)
Tudo que eu escrevi quando estava apaixonado considero safras ruins,belas declarações,mas poesias ruins,a poesia me atrai e me irrita, às vezes.
Já fiz muitas experimentações quando estava num grupo de poetas aqui da minha cidade.
As pessoas não dizem se gostam ou não da poesia pelo que elas sentem, ou entendem, fiz propositalmente uma poesia ruim,na minha vez de declamar(algo que abomino)fui aplaudido entusiasticamente.
Já assinei poesias de grandes poetas com meu nome e mostrei para algumas pessoas que eu sabia que tinham a arrogância lá no céu
e eles desdenharam,depois disse de quem era e a cara caiu.
Também já fiz o contrário,
escrevi eu mesmo e disse que era do Bandeira e se tornou a poesia mais perfeita do universo.
Há poucas pessoas sérias,pois então,a poesia é algo estranho, tem pessoas que acham que escrevem poesia, porque é algo que parece fácil:
"As flores escapam entre o céu do teu beijo
e a claridade dos teus olhos me trazem a certeza de ser só teu"
Esse tipo de construção pode ser escrita milhares de vezes à cada segundo.
Uma pessoa sem técnica que acha que tem inspiração vai achar que se demora um mês pra escrever isso e no entanto é automático,ela esperará vir inspiração ,sem técnica pode vir algo ruim, mesmo que "inspirado".
Nós achamos estranho que um músico diga que, se você não souber tocar um instrumento ,não dá pra fazer música?
E um pintor que dizer que, se você não conhecer a técnica de pintar, as cores e tudo o mais, não se consegue pintar?
Não achamos estranho.
Mas dizer que é necessário técnica pra escrever resulta em:
_Mas você é elitista, poesia é pra todos e blá blá blá...
Para ter criatividade no que se escreve não é necessário vocabulário rebuscado
e sim experiência em juntar palavras , fazer encontros que ainda não existiram,
de palavras que ainda não trabalharam juntas, mesmo que sejam duas reles e maltrapilhas palavras e não dois empolados e elegantes vocábulos. A poesia é exatamente a junção de duas ou mais palavras pra gerar uma terceira idéia que não tem similar no mundo concreto.
A poesia na qual não se encontra imagens
nem entrelinhas
que não instiga
que não brinca com as palavras
que não transforma sentidos, não é poesia.
Poesia tem que dar nó no cérebro.
Poesia é ver duas palavras aparentemente desconexas que dão um outro sentido que não se consegue explicar nem teorizar racionalmente.
Poesia já é antes de ser escrita.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Livros dublados

_Por que não fazem livros legendados?
_Como assim?
_Sei lá, todos os livros que eu li e que foram escritos em outra língua
são livros dublados...
O garçom coloca displicentemente a garrafa de cerveja na mesa e
foge daquela conversa de louco.
_Pensa comigo, nós vemos filmes legendados porque gostamos das vozes originais
dos atores e lemos a legenda que traduz fielmente o roteiro e os diálogos...
o filme dublado é uma adaptação, precisa caber na boca do ator, que nem fala a língua,
a sincronia é mais importante que o sentido...
_Tá, e onde você quer chegar?
_Os livros que nós lemos são livros dublados.
_Hã?
_Por que não legendam os livros? Poderiam colocar uma frase na língua original e a tradução
embaixo, em outra cor.
_É, algumas coisas poderíamos entender na língua original mesmo ou buscar traduções por conta
própria.
_Vou escrever um livro legendado.
_ Sobre o que?
_Ainda não sei,mas as legendas serão vermelhas.
_Mais uma cerveja?_ o garçom diz
_Traz mais duas,e a conta...legendada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Poesia


A poesia é experimento
é momento, é hipocrisia
é em determinada hora do dia colocar pra fora
a carcaça escondida de uma inspiração que não veio.
É dizer do céu a nuvem escondida
a palavra criada, a certeza fodida de que nada deu certo
na vida.
É rir da cidade, das ruas e dos rios
É proferir absurdos e tingir de vermelho os lábios frios
A malícia que zomba dos puros,os morcegos ,os muros
os mendigos e suas filosofias (e os poetas inspirados)
A poesia é o medo, a corda enforcada no pescoço lírico.
O absurdo , o nítido
o deserto mascarado dos teus olhos.
A poesia é a beira do abismo
e a cadeira de balanço do tempo...
é o indizível.
O sentinela faminto, devorando sentidos
o sutil bater de asas dos pensamentos sorvidos, a mais elétrica das metáforas
o olhar destituído de glória
a cólera desdentada da humanidade...o mito final...o suicídio
(embora tudo seja cíclico), a verdade silenciosa do espírito...
A poesia é isso,o que não se escreve.

sábado, 31 de julho de 2010

Som


Uma noite de silêncio...
Uma espera delineada por dois dedos de esperança morta.
Escancarei meus sonhos destruindo todos os mil caminhos de volta para casa.
Eu gritei e me ensurdeci, berrando palavras desconexas...
Ainda existe uma cerveja gelada na geladeira?
Murmurei,impaciente, um mantra hipotético (como se fizesse parte de um ritual mágico).
Corri,abri, derramei minha alma goela adentro...surtei por dois segundos, tremi,suspirei e me arrependi de tudo.
Ainda ouço o diálogo incrustrado na retina.
Os segundos eternos de um apodrecer minimalista.
Ainda te amo...ouvi centenas de vezes,uma escala de cinza desaparecendo no espaço e o ruído surdo de um fechar de portas
suicidas.
Queria apenas me debruçar em dúvidas e escorraçar as tristezas, mas há uma serenidade pálida tingindo tudo...sempre.
Mais uma cerveja e os olhos saltando lágrimas das órbitas e teu retrato sussurrando passados e centenas de perdões e nenhuma
obsessão curaria agora a necessidade de me sentir lúcido.
Acabou.
Mais uma noite breve e estanque, mais uma cicatriz jorrando crenças.
(e ainda lembro da vontade quase patológica do teu beijo)
Quanto tempo se passou desde que me tornei um anjo decepado cuspindo medos por todos os poros?
Ainda assim é cedo.
E minha alma,cega, vaga por entre os trens e estações e se perde entre as almas e sonhos, demasiadamente viva e real.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Canção de Amor pra uma Emo


Eu prometo
que nunca mais me visto de preto
Vou usar alguma coisa que combine
e escutar alguma música do Cine

Prometo que não tenho um enfarte
se ouvir por outra vez Restart
Sempre ouvi Judas Priest
Agora ando por aí sempre triste

Bangeava ouvindo Sepultura
Agora não tenho mais cura
Joguei fora os discos de metal
Se alguém grita comigo eu choro e me sinto mal

Eu choro toda vez que o Fresno toca
Passo rímel,lápis preto e batom (A Lôca)
Sou mais branco que um fantasma e não tenho nenhum músculo
E durmo na porta do cinema toda estréia de Crepúsculo

Me apaixonei por uma Emo
Esse castigo quem me deu foi o Demo
Pior que aquela camisa amarela da Minnie
É ter que vestir outra vez calça skinny.

Luciano Pires

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Reflexo


Refletido em teus olhos sou apenas um pixel
Morto em significado.
Atravessando um caminho inverso, inacabado.
Espelho enferrujado, lente empoeirada de sentidos.
Por entre os dedos, quase envergonhada,você me olha
e distrai todos os pensamentos entre a névoa da madrugada e doses ínfimas de solidão.
Não enxergo as linhas, finas considerações, apagadas, tímidas
Enfrento os dias, sufocado em meus próprios medos
esperando a promessa muda de tempos melhores (enquanto ainda respiro)
Refletido em teus olhos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Indício


O medo, indício.
E minha face, plena de ódio, soluça.
Música, suor, gengivas sangrando...
e teu surdo momento descamba...
Ainda ouço,levemente amordaçado,meu sonho ao longe.
E tudo é tão fácil,
desmemória em ciclos regulares...
Tudo é tão útil,
menos a lágrima de batom no silêncio do quarto...
Teus olhos claros, verdes lacrimejantes...
Teu sussurro sobrevoando a noite, a brisa fria e o amontoado de significados
derramando solidão por sobre o tapete da sala.
Eu, nada absoluto e indigno
permeio todos os nomes, os lábios, a saliva quente do Destino...
Adormeço sob teus pés, acariciado pela garoa fina dos teus olhos.

Luciano Pires

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Memória


Há de se ter memória.
Por entre os dentes do destino,
na escória maldizente dos versos, velhos,
prende-se tecidos de nada, bordados com palavras
e sonhos.
Teu sorriso e teu silêncio,mortos.
Sem teu olhar , meu destino é nulo
Um absurdo imóvel,um sono profundo, um estalar de dedos no cérebro.
Há de se ter vida.
Para que a necessidade se atormente,para que o inevitável se acabe.
E , ao longe,todo passo e todo ruído se turvem e se escondam.
Há de se ter dia, por que a noite perdura e me enegrece e meus olhos se apagam
roendo cada segundo de um morno amanhecer.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Bicicletas x Carros


Encontrei esse texto na internet e o achei perfeito.

Outro dia me peguei explicando para um colega de trabalho por que a moto é muito mais parecida com o carro do que com a bicicleta, que por sua vez tem muito mais a ver com andar a pé.

Então vamos lá, qual é a grande sacada da bicicleta?

1. Quem leva quem?
A diferença essencial entre qualquer transporte motorizado e os de propulsão humana é justamente o "motor". A bicicleta não leva a pessoa a lugar nenhum. É o próprio ciclista que "se carrega", apenas usando as rodas para potencializar sua força.

2. Não é pra qualquer um
Num carro, o que importa é o modelo, a cor, a potência do motor, o preço, o design... no caso da bicicleta, o que importa é a atitude, coragem e força DO CICLISTA. A bicicleta em si não é nada, não tem nada, e geralmente ciclistas urbanos preferem mesmo bicis meio surradas para se prevenir de roubos. A única ostentação possível é a das pernas torneadas...
Qualquer pessoa pode dirigir qualquer carro. Mas apenas alguém com atitude suficiente para desafiar as convenções e o preconceito, com coragem para enfrentar o desrespeito e o perigo, com força e preparo para fazer girar duas rodas com as pernas, só alguém assim é que pedala.

3. Aproveitamento de energia
Um carro queima petróleo para deslocar suas 2 toneladas de metal e plástico por aí, e apenas uma parcelinha marginal dessa energia é usada para levar a (única) pessoa sentada ao volante. Soa meio absurdo, pra não dizer burro. O ciclista, além de prover ele mesmo a energia e o trabalho, desloca apenas a si mesmo - o peso da bicicleta é desprezível e o motor está embutido nele mesmo.

4. Deslocamento orgânico
Dirigir um carro envolve estímulos que levam a reações, que levam a atitudes reativas, que finalmente resultam na ação. Por exemplo:
a. Estímulo: sinal verde
b. Reação: "posso acelerar!"
c. Atitude reativa: pisar no acelerador
d. Ação: o carro acelera

Eventualmente, depois de um tempo de prática, o motorista pula a etapa (b), ligando (c) diretamente com (a). Mas isso não muda o caráter "reativo" da coisa toda. Esse sistema tem dois grandes problemas:

I. Separar o sujeito da ação (ou do meio);
II. Permitir uma conduta cômoda, reativa, baseada na espera por estímulos para então agir.

No caso da bicicleta, o usuário é o próprio motor, então ação e reação são a mesma coisa. Além disso, o ciclista tem total noção e domínio sobre sua velocidade, potência, aceleração, agilidade, principalmente se for uma fixa (pois em nenhum momento permite ao ciclista "desligar-se" do movimento da bici).

Finalmente, o ciclista, principalmente num trânsito apático como o nosso, obrigatoriamente desenvolve uma habilidade e sensibilidade toda especial para o trânsito. Quando pedala na rua, está o tempo inteiro usando os cinco sentidos, atento a todos os elementos que o cercam, sempre calculando as velocidades dos outros veículos, antecipando as suas ações, as atitudes são pró-ativas. Ou seja, o ciclista "faz o seu caminho" , enquanto o motorista "segue o caminho traçado".

Ao mesmo tempo, evita-se a burrice. Os motoristas costumam associar a velocidade máxima com a velocidade de deslocamento, e vivem reclamando dos "lerdos" na rua (bicicletas se encaixam na categoria). O ciclista, no entanto, logo percebe que uma coisa nada tem a ver com a outra. Sem nunca ultrapassar os 30km/h, a bicicleta chega antes ao destino que o carro, que alcançou velocidades de pico de mais de 100km/h... Aproximando-se de um farol vermelho, pr exemplo, o ciclista naturalmente diminui a velocidade muito antes, de modo a estar em movimento quando o sinal ficar verde (evita desperdício de força com frenagem e aceleração a partir do zero)... e é ultrapassado pelo raivoso motorista (desperdício de energia com velocidade) que em seguida freia bruscamente (desperdício de energia com frenagem) no farol vermelho - e é novamente ultrapassado pelo calmo e "lerdo" ciclista. Quando o sinal abrir, o ciclista estará embalado e assim abrirá larga vantagem sobre o carro, que vai acelerar fortemente (mais desperdício de energia).


5. A postura "defensiva-defensiva"
O motorista, mesmo que dirija de forma defensiva, age sempre considerando 100% de colaboração dos outros elementos do trânsito. [um motorista 'sem-noção' dirige considerando 150% de colaboração, ou seja, ele espana a rosca do sistema e obriga os outros a abrir mão de seus direitos para lhe dar passagem]. Já o ciclista, mediante a falta de infraestrutura e sabendo do desrespeito vigente, pedala sempre considerando uma certa margem de erro. Podemos dizer que o ciclista considera 50% ( ou menos) de colaboração dos outros elementos. Isso se aplica, por exemplo, em cruzamentos: mesmo estando na rua preferencial (além da preferência universal garantida à bicicleta), o ciclista se aproxima com cautela, pois sabe que os carros nas vias perpendiculares provavelmente vão ignorar sua presença, o respeito a vida, a lei, a preferência e o bom senso e acelerar assim que o fluxo de carros permitir.

Por essas e outras, o ciclista pode ( e muitas vezes DEVE ) furar o sinal vermelho e fazer outras coisitas consideradas infrações para os motoristas. Se todos se locomovessem de forma tão orgânica, racional e consciente como o ciclista, não precisaríamos de tantas leis, proibições, sinalizações, restrições e afins.

Isso é pedalar pra mim.

Correr tendo rodas como continuação do corpo.
Navegar num mar de irracionalidade fortemente controlada usando a racionalidade absolutamente livre.

Chega.

Gunnar

terça-feira, 6 de abril de 2010

Grito

O grito desata o nó
e permaneço preso.
Teu nome,a presença escandalosa de uma calma fria,
Minhas mãos ao redor da tua alma.
Tudo isso desmistifica o teu olhar.
desmaia o equilíbrio quase eterno da tua voz
e meus ouvidos se calam
estrangulam-se os segredos
e eu prevejo o suicídio sutil
de todos os meus sonhos e a tristeza inequívoca e disforme do último adeus .

Desordem


Vomitei, por todos os poros,anseios
Criei,entre as sombras da memória, demônios
Li mil livros (sem um balbuciar qualquer)apagados
Abandonei os planos,através da noite,mutilados
E, ao invés de signos, criei o caos
ao invés de voz,sussurros
e entre os muros e murros
Silêncios.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A saudade de um sonho


E ela novamente espantou o Sol com as mãos e devolveu ao tempo aqueles olhares tristonhos e melancólicos de anos atrás...sempre fazia isso quando precisava sorver algum cálice mais amargo de saudade, uma memória desgastada ou um silêncio difícil de digerir...
Fez um psiu agudo quando viu por um segundo ele passar.
_Poderia me olhar e talvez dizer o quanto tem saudade de mim?
_Impossível.
_Por que?
_Porque teus olhos me afastam, teu odor intranquilo de quase ódio.
_Não te odeio,apenas não sei o que me fez pensar certas coisas...
_E agora prefiro caminhar ao largo do teu coração, farejando novos medos, transformando-me em névoa ao primeiro contato.
Ela se aproximou e beijou de leve a boca ensanguentada...
­_Nada me fará te perder,nada...nem o peso maldito do tempo, nem a absurda intranquilidade que me causa estar longe de mim mesma.
Ele chorou friamente e levantou os olhos para o infinito.
Ao menos por um instante o céu estremeceu,e tudo se tornou silencioso e denso...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Silêncio

Um silêncio absurdo entra pela porta
me olha nos olhos...me encara
eu apenas penso demoradamente...
vejo por um segundo todos meus medos se encolherem...
e a fragilidade do destino perante minhas escolhas
e a quase solidão espalhada pelos quatro cantos da sala
o sopro frio do passado espreitando...
mas me mantenho em pé, ancorado
um breve hesitar,um passo pra trás
e encaro friamente de volta aquele silêncio estrondoso
e tudo se torna embaraçosamente nítido
todas as nuances de palavras e sentidos sobrevoando minha cabeça
estico a mão e acaricio cada fotograma
uma projeção lenta e desfocada de sentimentos sem cor
o silêncio escorre morno pelas frestas do tempo
e molha meus pés...
ergo a cabeça e sinto tudo despencar demoradamente
e abro cada poro
cada centímetro de alma...
e recebo em mim milhões de átomos de silêncio
significados e dúvidas.
Um desmaio consciente, beirando a loucura e tocando de leve o caos...

Luciano Pires

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