quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ainda não era noite

Tua mãe te deu a sombra
A parte mais fria do universo
Berço eterno de suaves decadências.
E mão ante mão,desceu a corda escorregadia de certezas
Afundando sorrateiramente na bolha consciente de desprezo planejado.
Tua mãe te deu a palavra e gritou a plenos pulmões,te deu e te tomou um segundo depois.
E então você olhou,muda,para todos os lados, mãos abertas, sorriso forçado.
A pancada vívida ,na cara,no dorso,na alma,e o silêncio portátil,a poesia amassada na lixeira, suja de café.
_ Nem dá mais pra ler, disse pra ti mesmo.
E então adivinhou cada frase e reescreveu atrapalhadamente.
No dia seguinte o sonho ainda tilintava na memória (Era cedo)
A música tocava a noite toda e o cérebro cansado cooptava ao sonho e roteirizava tudo de maneira arbitrária,dançava a coreografia estranha e desorganizada sem saber que tudo já estava destinado,tudo já era plano,tudo plenamente marcado e autografado pela parte mais sórdida da memória.
E você acordou.
E você viveu o dia todo.
E você achou que estava no comando.
E alguém riu da tua falta de controle.
E os fios ficaram aparentes e a boca do ventríloquo se mexeu.
teus espasmos e tuas convulsões
teu olhar pétreo e balbuciante.
O mármore incandescente emergia lentamente por sobre os últimos raios de Sol.
Ainda não era noite,peregrino, ainda não era noite.

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