Todo sangue e toda agulha,
toda mágoa e um dedo de cinismo se encontram no teu olhar.
Todo segredo mal guardado
toda habilidade em se esconder atrás de algo
e duvidar de toda mínima saudade.
Prevejo tudo, no teu glóbulo ocular...teu sarcasmo disfarçado de ajuda.
vejo nítidos bocejares
na distância da tua atenção
e me sento, com um saco de pipocas, bem na frente do teu sentimento
e empurro teu álibi pra longe do teu advogado.
è assim que me sinto
mais mutilado e menos sábio...
Tua gratidão bebada...tropeçando nas vírgulas semeadas por tua indiferença.
E nada será um sonho, não enquanto eue stiver acordado e com as pálpebras acesas.
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
Sarcasmo
Todo sangue e toda agulha,
toda mágoa e um dedo de cinismo se encontram no teu olhar.
Todo segredo mal guardado
toda habilidade em se esconder atrás de algo
e duvidar de toda mínima saudade.
Prevejo tudo, no teu glóbulo ocular...teu sarcasmo disfarçado de ajuda.
vejo nítidos bocejares
na distância da tua atenção
e me sento, com um saco de pipocas, bem na frente do teu sentimento
e empurro teu álibi pra longe do teu advogado.
è assim que me sinto
mais mutilado e menos sábio...
Tua gratidão bebada...tropeçando nas vírgulas semeadas por tua indiferença.
E nada será um sonho, não enquanto eue stiver acordado e com as pálpebras acesas.
O Filho de José e Maria

O disco ficou conhecido como uma ópera-rock, ou também como o álbum progressivo de Odair José.
Minhas impressões(nada muito elaborado, fui escrevendo enquanto ouvia novamente)
Nunca mais começa como uma trilha blacksploitation,uma letra que diz que ele aprendeu as coisas boas da vida, que o passado não o assusta.Um groove muito bom.
2. Não me venda grilos (por direito)
um samba grooveado,com uma letra romântica, com a sacada: "não me venda grilos, viver já pesa muitos quilos", um solo de gaita muito boa.Como disse alguém em outro blog, realmente ele tinha uma fixação por mulheres e filhos.
3. Só pra mim, pra mais ninguém
um começo singelo, a voz num reverb louco,a letra, um pedido deseperado pra "seu bem" não abrir a porta pra ninguém,na letra ele expressa o medo de ser traído,eximindo a mulher de culpa, pois o perigo está por aí, basta uma troca de olhar.
4. É assim
me lembrou Raul Seixas(não sei porquê), a letra é muito boa,o vocal é gritado por vezes,novamente um groove, a letra é meio esotérica(ou exotérica?),tem um solo de guitarra com wha-wha.
5. Fora da realidade
a mixagem da bateria é ótima(eu achei),solinhos de guitarra pontuando a música,sempre o anjo aparecendo nas músicas, e dizendo pra ele "aturar" a sua amada.uma interpretação gritada e apaixonada.Um bom solo de guitarra(esse disco tem vários solos),é um hardrockzinho.
6. O casamento
a faixa mais ópera-rock do disco, com começo no piano,com sinos e sonorizações,"quem são essas pessoas sacristão?", uma atuação magnífica,a letra começa como um diálogo entre ele e o vigário.Muito bom.Parece contar a história de Jesus(parece?).A música vai num crescendo,acabando com os parabéns aos noivos.
7. O filho de José e Maria
Uma ótima abertura com um piano,a letra falando sobre josé e maria(jesus?)cantada num tom melancólico, um coral muito bonito de fundo.
8. O sonho terminou
um começo psicodélico, com letra falando da humanidade de todos nós, a música é a mais "rock" do disco, com um reverb na voz,se fosse em inglês tinha gente cultuando por aí,um solinho de sintetizador, a melhor música do disco, com certeza.
9. De volta às verdadeiras origens
destaque pro baixo grooveado, a letra é a mais popular do disco, tem até uma segunda voz meio sertaneja,e uma orquestração bem disco numas partes.
10. Que loucura
é uma disco music das boas, começando com guitarra típica e bateria idem.
Trech de uma entrevista que vi no blog Trabalho Sujo, falando desse disco:
Foi quando eu fiz o disco O Filho de José e Maria e todo mundo disse que eu tinha ficado doido. Eu escrevi 24 canções que, na ordem, cada uma fala de uma fase da pessoa: a primeira é quando a pessoa nasce e vai até a última que é quando o cara morre, ou se entendeu. Disseram que era uma ópra-rock, mas eu nem sei o que é isso. A igreja não gostou, porque achavam que eu tava falando Jesus Cristo – e tem uma música que o cara fica doidão, outra que ele não sabe se é bicha ou macho. Mas esse disco não ficou nem 50% do que eu queria.Era um disco pra ser tocado em teatro, não era pra tocar num clube, pro cara ouvir enchendo a cara de cachaça, nem pra tocar numa praça, com uma mulher pendurada no pescoço. Fui trabalhar com o Guilherme Araújo, que era empresário de teatro. E vieram perguntar se eu não gostava do que eu fazia, se eu tinha vergonha de tocar a “Pílula”, que bobagem. Esse disco não foi vitorioso comercialmente, mas é um disco muito bem feito. E eu queria fazer um disco duplo, mas a Polygram não queria lançar, então fui procurar outra gravadora. Fui pra BMG mas quando cheguei lá disseram pra não fazer duplo.
De onde você tirou inspiração pra fazer um disco desses?
Duas coisas. Primeiro, o som: eu achava o máximo o som das guitarras daquela época, do pop do Joe Walsh, aquele disco ao vivo do Peter Frampton, aquela guitarra emborrachada, só ele e três caras de apoio e vendeu vinte milhões de álbuns. Então a idéia inicial era eu ter uma banda como se fosse de garagem. Eu montei essa banda, com uns amigos. Na época, eu tava muito bem de vida, tava solteiro, não tinha compromisso com nada, passava o dia na praia do Pepino sem fazer nada e pensei, “vou fazer uma banda” e fiz. A gente ensaiava lá no Vidigal. Quando eu fui gravar, o Durval Ferreira, aquele da bossa nova, começou a por defeito nos músicos: “Esses caras não tocam porra nenhuma!”. Mas a intenção era aquilo mesmo, tipo nos Rolling Stones, que aquele cara não é o melhor baterista, mas pra aquilo ali era ele mesmo!Depois, é a idéia do tema. Eu tava no Rio e fiquei chateado com uma situação e esse senhor, o Aderbal, que me levou pra falar com o Golbery, veio me perguntar o que eu tinha. Eu expliquei e perguntei o que eu podia fazer? Eu perguntei e ele saiu da mesa. Pensei: “Qualé a desse velho? Eu pergunto uma coisa pra ele e ele sai? Deve estar ficando esclerosado”. Deu uma meia hora e ele aparece com um livro na mão. “Você me perguntou uma coisa que eu não posso responder, mas esse cara pode”. E me deu O Profeta, do Kalil Gibran. Eu comprei e li tudo dele, achava o Kalil Gibran o máximo. E foi dali que eu resolvi escrever as letras do Filho de José e Maria, eu passava o dia inteiro trancado no quarto sem fazer mais nada, só tomando vinho e lendo aquilo. E aquilo virou uma bola de neve.E a partir desse disco, as pessoas começaram a fazer questionamentos sobre a minha competência pra vender discos, mas foi até legal, porque você ter a obrigação de todo disco ter de vender é uma bosta. Até porque você não consegue isso a vida inteira. E se você analisar, essa coisa de fazer sucesso, fazendo músicas direto, é um ciclo de sete anos. Pode ver, todo mundo, tem raras exceções, só aguentaram sete anos, pode reparar, Beatles mesmo: sete anos.
link pra entrevista completa:
http://www.gardenal.org/trabalhosujo/2006/08/oj_silva.html
link pra baixar o disco:http://www.4shared.com/file/17350226/ce525262/1979_O_Filho_de_Jos_e_Maria.html
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Entrevista com o escritor Cesar Bravo, autor de Ultra Carmem
Saber mais sobre a trajetória de um escritor que começou se auto publicando até chegar à ser publicado por uma editora reconhecida e reverenciada em seu nicho, o Terror, é a função dessa entrevista, além de perguntar o que geralmente não perguntam , sobre o processo da produção textual.
Cesar topou responder algumas perguntas e saciar nossa curiosidade.
Antes, uma breve biografia do autor, escrita por L Brisa:
Cesar Bravo é um autor brasileiro nascido em 1977 que insiste em se manter fiel ao que gosta de fazer. Poucas vezes desfrutei de autores nacionais com uma atitude tão honesta e perseverante quando a dele. É autor e co-autor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs. Cesar também brinca um pouco com o violão, mas já o aconselhei que continue escrevendo...
O conheci há quatro anos, quando li um de seus textos publicado em um jornal da cidade. Minha primeira impressão foi: “O escritor mais azedo que eu já li”, mas isso só durou até conhecer melhor seu trabalho. É inegável seu talento com as palavras e a quantidade de emoção que é capaz de evocar em seus leitores. Também é impressionante como já disse, sua perseverança em defender gêneros espinhosos como o suspense e o terror aos quais se dedica mais fortemente.
Confesso que fiquei surpreso quanto fui convidado para falar um pouco de seu trabalho (somos praticamente concorrentes), mas também me senti honrado. Anotem esse nome, senhores. Cesar Bravo ainda vai dar muito mais o que falar no cenário literário nacional viciado e insosso que temos hoje. Já confirmou seu nome em mais de oito volumes de coletâneas com outros autores, a maioria pela editora Multifoco Sul e Rio. Também tem seus Romances e outras obras vendidas pela Amazon.com.
Leiam esse escritor antes de ignorá-lo ou trocá-lo (como ele mesmo diz) por “qualquer gringo cheio da nota e sem escrúpulos na caneta”
Nós temos um grupo onde é quase um tubo de ensaio, nos reunimos para estudar estrutura e linguagem, fluidez, diálogos, o micro. Eu desconhecia completamente a estrutura. E estou aprendendo com um pessoal mais jovem exatamente sobre isso. Há uma polaridade que percebi ser bem evidente entre escritores com uma formação de Letras, mais fundamentados na linguagem, linguística, tudo relacionado a língua em si, mas que desconhece fundamentos de roteiro e por vezes desprezam esse conhecimento da estrutura, como se isso fosse prejudicar a pureza da escrita, deturpar a integridade artística. O que pensa sobre isso?
domingo, 8 de outubro de 2017
A Casa Vazia
A ampulheta imprecisa permanece estática.
A arma apontada para a cabeça, os olhos pesados, as mãos tremulas, o suor profano cintilando no segundo eterno. Nenhum grito, nenhuma saudade, nenhuma suavidade sonora, nenhuma santidade esquecida que pudesse ser avisada. O cano pressionado carimbava um círculo mágico, que aos poucos ia ficando mais evidente, a pele marcada como boi, como bicho em sacrifício, como o próprio tiro antecipado, como alvo premonitório.
A oração atravessava a linha do silêncio embalando em religiosidade a carne prestes a ser abatida.
Lembrou-se do grito mudo. Lembrou-se da noite com a Lua apagada, pássaro mordendo e arrancando a língua do tempo. Lembrou-se da sanidade, que gemeu e se jogou do abismo, pairando no último segundo.
Moveu-se um pouco, sacudiu as últimas lembranças.
O tiro escorregou pela arma, bateu e vibrou como uma pedra saltitando na água, desviou do destino para se alojar no quadro pendurado na parede, um quadro de uma casa à beira de um lago, do outro lado do mundo, aquele dia a morte encontrou a casa vazia.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Gotta a light?
Gotta a light?
_ A fita, pega a fita.
A poeira dançava por entre o feixe de luz na escuridão do quarto.
_ Tá em cima do guarda-roupa, numa caixa de sapato.
_É essa? A fita VHS estava começando a pegar formiga, alguns pontos brancos de mofo.
_Se tiver alguma fita dentro pode trazer,vamos usar.
Beto colocou a fita na mesa de centro.
_Pronto. Esfregava as mãos e sorria. Esfregava as mãos e sorria. Sorria. Suspirava forte. Esfregava as mãos.
_O André disse se vem?
_ Tá vindo com o Clóvis, pararam no supermercado pra comprar vinho.
_E a Lúcia?
_Também vem, tá vindo com o Flávio.
A campainha berra.
_E aí, caras. Podem entrar e ficar à vontade, sentem no sofá, podem deixar as garrafas na cozinha.
Outro berro.
_Chegou o casal que faltava.
Luís era um ótimo recepcionista, o sorriso lateral e o aperto de mão forte.
A casa em que os irmãos moravam era grande, piscina na área externa e uma academia que nunca era usada. A sala de cinema era onde se reuniam sempre. A mesma turma.
_Vamos começar?
As velas foram acesas, uma a uma.
Um grande caldeirão foi posto sobre a mesa de centro.
Essa reunião de cinéfilos sempre acontecia no último sábado do mês, mas dessa vez Luís e Beto resolveram que iriam assistir o oitavo episódio da nova temporada de Twin Peaks todos juntos. No dia anterior Beto tinha visto alguma coisa na internet sobre fazer chá com fita VHS, que dava barato, que alucinava, que fazia ver coisas,mas que era perigoso. Inventou pra todo mundo que ia fazer chá de cogumelo, mentiu dizendo que quando foi pra São Tomé das Letras tinha aprendido.
De tarde, enquanto Luís estava no quarto lendo, ferveu um VHS antigo da coleção Folha de cinema, devia ser Lanternas Vermelhas ou Indochina. Fez o ponche, duas garrafas de vinho, duas maçãs, cravo, canela, mel, vodka.
_ Deixa eu tomar um gole dessa bagaça pra ver se ficou bom.
_Não, ficou bom, eu experimentei, deixa pra hora de assistir, não vamos queimar a largada.
Todo mundo já tinha visto o episódio, iriam rever juntos.
Luzes apagadas. Velas acesas. Cada um enche a sua caneca de ponche.
Beto olhava para cada um e ficava pensando:
_Porra, é um chá feito de fita VHS, é um tributo ao cinema, é a melhor forma de viajarmos e discutirmos depois, vai ser foda.
Estavam todos em uma roda no centro da sala. Levantaram a caneca.
"Essa é a água e esse é o poço. Beba tudo e desça. O cavalo é o branco dos olhos e o escuro dentro deles"
Todos repetiam a frase em uníssono, como uma missa negra cinéfila Lynchiana.
Agora todos bebam.
Cada um virou o conteúdo da caneca ao mesmo tempo e se sentaram.
Beto deu o play no episódio baixado da internet.
A bomba atômica. Os vômitos. Os urros. Tudo se desintegrava. A parede suja de sangue. As cabeçadas na parede. A luz. Desliguem essa luz. O fogo. As velas derrubadas perto da cortina.
A casa em chamas. Os corpos pegando fogo.
Quando os bombeiros chegaram não dava mais tempo, todos estavam mortos, asfixiados, com os olhos abertos fixos na tela gigante.
O arquivo corrompido travou e a cena se repetia, os pixels se derramando e formando monstros ainda piores. Apenas se ouvia em um volume ensurdecedor:
_Gotta a light? Gotta a light?
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
O tempo é uma velha decrépita
A noite era fria, congelante, daquelas que quem não fuma fica brincando de soltar
fumaça pelo canto da boca, feito vapor.
No posto de gasolina não tinha nenhum frentista, todos escondidos, abrigados, encolhidos, fora de visão.
Comprei duas heinekens, paguei pela janelinha, bebi a primeira quase de imediato e fui caminhando para o bar
com a segunda long neck na mão, parecia um daqueles velhos robôs dos antigos filmes, camadas de roupas e
agasalhos e cachecol e touca, os olhos lacrimejando com o vento cortante.
Desci as escadas, em cada degrau havia uma vela acesa tremendo de frio.
Um instrumento desafinado projetava notas quebradas e desfiguradas pelo ambiente, havia
apenas uma pessoa quase adormecida no balcão e um velho estático segurando um violão.
Pedi um bomberinho pro dono do bar, que sem abrir a boca colocou a mistura no copo e voltou a se sentar, calado.
O tempo ali não andava como lá fora.
Parecia que todos os demônios de todas as religiões marcavam encontro ali,
desde a eternidade.
Sentei-me e passei a olhar com um certo desconforto para a figura que arranhava as cordas.
De vez em quando alguém saía do banheiro sem que eu tivesse visto entrar, ninguém conversava, nenhuma palavra.
As notas cambaleantes espantavam o silêncio como uma prece mal resolvida.
Pedi outro bombeirinho e mais outro.
Espremi os olhos, nesse momento toda a atmosfera ficou mais quente e um cheiro forte estacionou no ar.
Uma névoa pesada preenchia cada minúsculo canto e uma pequena luz, fraca e tremida, se movia até o palco.
Nesse instante ouvi uma voz longíqua, como que saída de um antigo disco de cera, percebi ser Robert Johnson
cantando Cross Roads blues,
o som parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo e em lugar nenhum.
Não saía dos alto falantes, apenas existia, flutuante.
Aos poucos vi a figura imponente sentada em uma cadeira de plástico, o negro de aparência fantasmagórica
dedilhava o violão envolto por uma aura amarelada e ao seu redor todo o peso de séculos desfilavam com gemidos abafados.
Olhei para os lados e todos estavam distraídos.
A música foi terminando, o acorde final. Silêncio.
Pisquei por um instante e quando abri os olhos tudo voltou ao normal, aquela mesma figura decrépita que antes
espancava o seu violão desafinado estava novamente sentada enganchando os dedos pelas cordas, as notas tropeçando pelo ar,
o frio corroendo a alma.
Os demônios voltaram à sanidade por alguns minutos, subi vagarosamente os degraus, todas as velas estavam apagadas,
ao sair pela porta avistei uma outra escada, essa nunca tinha visto antes, desci lentamente por ela, as velas
todas se acenderam novamente, continuei descendo até chegar outra vez ao bar, ouvi os guinchos dissonantes
do violão mais uma vez e os mesmos rostos sem expressão, tudo acontecia exatamente da mesma maneira,
até que decidi outra vez subir os degraus pra ir embora, vi as velas apagadas e na saída a mesma escada, o mesmo bar, a mesma música e a mesma noite fria.
O tempo é uma velha decrépita que guarda cabeças de peixe no congelador.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Um dia qualquer
Ele começou a andar de cabeça baixa, contando os ladrilhos,
cantando uma música mentalmente,seus pensamentos se embaralhavam como
novelos sujos de lã.
Abriu a porta do quarto,havia apenas uma cadeira e um pequeno palco com
um microfone.
Ouviu o barulho do ferrolho pesado
fechando a porta do quarto atrás de si, lá dentro o silêncio era absoluto.
Sentou-se, fechou os olhos e esperou.Uma música começou a tocar baixinho,
naquele pequeno palco surgiu um anjo, de auréola e tudo, as grandes asas
recolhidas atrás das costas, o terno impecável e um coque bem arrumado que
lhe segurava os cabelos louros compridos.
Deu três pequenas batidas no microfone.
O anjo começou a fazer um stand up improvisado relatando diversas passagens
da vida do senhor que, incomodado, se apertava na cadeira.
Desde a infância até a bebedeira da semana anterior, tudo virava piada.
Os fatos mais tristes e as desgraças, as alegrias e vitórias, tudo era
espezinhado e rechaçado e envolto em risos de claque, que envolviam o
quarto como uma nuvem.
Depois de longas horas o anjo agradeceu, surgiram aplausos e apulpos, ele se
curvou e se despediu.O senhor mal piscou os olhos e já não havia ninguém ali,
apenas um leve perfume que passeava pelo quarto apertado.
Pela janela aberta via-se um campo deserto, apenas algumas árvores e nenhum
ser humano, estava quente e o Sol se impunha como um peso sobre aquele
dia interminável.
O barulho da porta se abrindo o despertou do torpor._Pode sair, senhor.
Ele abandonou o prédio olhando fixamente para o papel que tinha em suas mãos,
até que tinha sido uma quantia razoável.
Caminhou lentamente até a sua casa, olhando para o chão, a cabeça pesada e
o suor deslizando pelo seu rosto, com as costas da mão enxugava e tremia.
Depois da esquina,
cruzou a avenida e continuou sem saber seu nome.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Mão ao alvo
Guardando algum amarelado papel enferrujado destituído de valor na gaveta de baixo do criado-mudo.
Isso é tudo.
Teu ouvido um pouco desafinado enxerga poucos pontos luminosos energia estática terreno baldio da memória arquivo corrompido.
Abre a geladeira e ouve um estampido toca o último hit verão praia moda jovem e o fogão reacende antigos valores.
Teu único erro foi continuar vivo e eu nunca te dei nenhum conselho que eu quisesse praticar sozinho meus ouvidos doem
a parte mais incrível do dia e ainda é apenas janeiro talvez eu abra o jornal e te veja na primeira página e talvez não seja crime.
Mão ao alvo.
E saio para caminhar olhos pregados no horizonte invisível e a esquizofrenia impraticável do dia a dia me chama de canto e escolhe um caminho bem mais fácil para se ausentar por completo (ainda não vi o jornal de hoje, talvez seja tudo um sonho)
Saí para comprar cigarro e o quarto ficou vazio.
Não tenho saudade desse futuro de tijolos velhos e da pichação quase surreal dependurada no fio do poste um par de tênis velhos a serenidade de se saber sozinho,ainda está cedo, talvez gaste todo o dinheiro que levo no bolso,talvez quebre alguns silêncios,talvez paire suavemente no alto de um edifício.
Estamos salvos por hoje.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Sombras Complicadas
Em um instante a biópsia intrincada de um sonho
E as estrelas morrem no escuro,uma a uma, chorando luzes tardias
A vida cheira as flores, sapateia no jardim de grama alta e
se deixa adormecer,eu sei de tudo nesse segundo.
Sei de cada célula do meu corpo assim como sei de cada galáxia mais distante.
Sei de cada acorde,cada nota, cada música e o silêncio perpétuo.
Sombras complicadas
Poesia soluçante
Uma viagem longa em um ônibus vazio
Deixo aos teus cuidados
Pode apertar a campainha quando quiser
Vou cochilar um pouco,me chame quando estiver perto.
Pé ante pé,uma caminhada às cegas,recostando-se nos muros,passando os dedos pelas folhas das árvores.
Sentindo o orvalho e o cheiro do dia que não nasceu.
Logo logo estaremos na cidade,e ali daremos as mãos em um beijo longo
e mais ou menos ao meio dia tudo vai voltar ao normal
O Sol no meio do céu,a lucidez no meio da testa,o sorriso no meio do rosto,um arco íris frio e congelado.
Não tenho fome,nem sede, nem frio, nem preciso de alma agora.
Tudo acelera desconfortavelmente.
Todas as portas irão se fechar, as luzes vão se apagando,restam apenas sombras.
Sombras complicadas.
domingo, 27 de novembro de 2016
O outro dia
eu apenas parei e me vi refletido na poça de água transparente
que, ilhada entre o lixo do mundo, trazia em si um silêncio e um desbotar na alma.
Coloquei os ombros para cima, os olhos traziam aquela tristeza e desconfiança de quando é quase
meia noite e no dia seguinte vai se acordar cedo e com medo e ainda bêbado de sonhos e vinho.
Encarei por alguns segundos e senti a brisa fria de um abismo descascado no muro de uma frase
errada e tardia.
Assim mesmo preferi me sentar no meio fio e aos poucos me despedir de mim.
A Lua por enquanto era uma cúmplice calada.
Não houve dia seguinte. Nunca mais.

