Tenho a impressão de que a metáfora não morreu por desgaste
estético. Morreu por incompatibilidade.
Ela não se encaixa mais nos sistemas que organizam o mundo.
Não indexa direito. Não promete nada com clareza.
Exige tempo, exige interpretação, exige risco, e tudo isso
passou a ser tratado como falha.
No YouTube, a metáfora não é proibida. Ela apenas não rende.
Títulos metafóricos não performam porque não dizem exatamente o que são.
Thumbnails sugestivas fracassam porque não podem ser classificadas.
O problema não é entendimento; é tolerância. O algoritmo não
aceita aquilo que não se deixa reduzir a uma intenção explícita.
Durante muito tempo, a linguagem funcionou como uma zona de
amortecimento. Havia maneiras indiretas de dizer o que não podia ser dito, de
justificar o injustificável, de encobrir a força com narrativas aceitáveis.
A política internacional sempre dependeu disso. Não se
invadia um país para tomar petróleo. Fazia-se uma “intervenção”. Não se impunha
poder. “Defendia-se a democracia”. Eram fórmulas gastas, cínicas, mas ainda
eram fórmulas. Ainda havia encenação.
Esse teatro foi abandonado. Quando Trump fala abertamente em
invadir para pegar petróleo, quando rasga o direito internacional sem se dar ao
trabalho de construir um subterfúgio moral, não estamos diante de franqueza.
Estamos diante de literalidade. A força não se explica. Ela se anuncia.
Putin faz algo semelhante. Não convence, não elabora, não
persuade. Avança. A narrativa vem depois, se vier. Não há metáfora suficiente
para cobrir o fato consumado.
A literalidade tem algo de brutal. Ela elimina mediações.
Dispensa o simbólico. Não pede interpretação, pede adesão ou silêncio. E o
curioso é que esse mesmo gesto aparece em toda parte. Na política, na cultura,
na comunicação cotidiana. Tudo precisa dizer exatamente o que é, imediatamente,
ou desaparece.
A metáfora sempre foi um risco. Ela pressupõe que o outro pode
não entender. Ou pode entender errado. Esse risco hoje parece intolerável. Um
mundo sem metáfora é um mundo onde o sentido já vem fechado, pronto para ser
aceito ou rejeitado, sem intervalo.
Talvez a insistência contemporânea na clareza, na
objetividade, na chamada honestidade brutal, tenha menos a ver com virtude e
mais com impaciência. A clareza absoluta costuma ser a linguagem do poder
quando ele já não precisa se justificar. O algoritmo exige clareza porque
precisa decidir. O poder literal exige clareza porque já decidiu.
A metáfora não desaparece dos livros. Ela desaparece dos
sistemas. Some quando deixa de ser útil, quando atrapalha, quando demora
demais. O mundo não parece interessado em ser interpretado. Parece interessado
em funcionar.
E o que sobra para quem ainda escreve por desvio é essa
sensação estranha de inadequação. Falar num idioma que já não é recompensado.
Insistir em zonas de sombra num ambiente que exige iluminação total. Não como
resistência. Apenas como constatação de que algo necessário ficou para trás.
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