quinta-feira, 5 de maio de 2016

Escudo

minha letra-rabisco
esquisito
Um ponto insignificante e prescrito
Derrota auto imposta
bagagem excessiva
eu te empurraria escadabaixo
se discordasse
por isso digo: enfrente
Nem sei de nada
Quando vi já era ontem
E no beco escuro da saudade
nem tem horizonte
escrevi mesmo com a caneta quebrada
vazando polaridades
alfinetando a sagrada ojeriza
dos que tem bom gosto como escudo
De cima do muro eu grito:
É assim que me fiz
É assim que se faz
Quem é cego nunca olha pra trás.
Minha sede é de nada
alma lavada
do pescoço pra cima é só dúvida
no resto do corpo é uma dança mal ensaiada
E um assovio vazando serenidade
lambuzando de medo a madrugada.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cinza

A melancolia se estende,espaçosa,se espreguiçando sob o céu cinza.

A mão de dedos finos da saudade escolhe um disco e o som preenche 

o ar flutuando por sobre os olhos fechados do universo.

As palavras desabando nas páginas corroídas de um velho livro de poesias

Eu aspiro essa fumaça faiscante de sussurros e metáforas

Desenho no vento um caminho cheio de flores esvoaçantes e o teu perfume na alma.

O céu é aqui

é o teu sorriso 

é o teu olhar

é a vida que grita e dança

é a folha caindo lentamente

a praça vaziaos pés descalços

e o beijo em preto e branco,granulado e em câmera lenta quando desce a cortina e as luzes lentamente se apagam

e estamos sós

e cheios de nós

sexta-feira, 11 de março de 2016

Inexiste



O que não tem nome
O que inexiste
O que ,de amor e glória,permanece inóspito
e em si persiste
O que não se cala
o que por mais anseia
o que se multiplica
e que duvida dos céus e da terra,
por mais que creia.
a alma labiríntica
que se alimenta aos poucos,tocando de leve
o paraíso na ponta dos pés.
Teu sorriso cru
e o espírito sonoro
propagando acordes e diamantes ,entre sóis e luas
silêncios e preces
absorvendo um infinito de sonhos
e iluminando os olhos cegos do viajante.
A estrada flutua,mansamente,na escuridão calma.
Somos eu e você
Somos todos eles,em cada átomo,em cada gene,somos tudo.
Tua sede é meu deserto
E teu sorriso ,vida.
Em cada voz que ecoa,em cada palavra escrita
Mil desígnios,se regenerando,se reconstruindo
Se atropelando por sobre as faces apagadas do tempo.
E no fim do corredor eu te espero
Braços abertos e signos escorrendo por entre os dentes
A saliva fria que escorre da alma
Inunda cada segundo,cada milímetro
e nos traz de volta para o centro de nós mesmos.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Um dia

A cidade desconhece o rio
Que me permeia e envaidece e soterra de medo todo o dia
Teus olhos apenas sorriem, como se não precisassem de desculpa alguma para adoecer e serem felizes.
Os altos prédios
Os dissidentes
Os loucos que dançam na garoa fria,ouvindo uma música transparente.
E a fumaça das horas se perde por entre passado,presente e futuro.
Um dia a mão se moverá sozinha
Um dia teu corpo não mais fará tua vontade
Um dia a estrada se moverá de encontro ao teu destino
Nada é tão simples
Nem tão complexo
Apenas um outro dia, sentado à sombra de eternidades.
Eu espero,talvez menos ansioso
Espero teu beijo
Como quem espera o desespero
Como quem calcula rotas de saída
E adormece sob um rompante lento de angústia
e má determinação.
Lá ao longe, na esquina, dobrando lentamente
Uma nuvem de poeira cinza 
flutua morbidamente 
Te chamo a atenção
Te grito
Aos poucos recobro os sentidos
Abro os olhos
E te vejo
Nesse momento tuas mãos parecem macias e seguras
Simulo um beijo, quase sem forças.
Você se deita ao meu lado
Recosta-se em meu peito
E ali se ouve toda uma vida condensada em um segundo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Esse texto não existe

Eu juraria que esse texto não existe
E aí os teus olhos passariam ao longo de cada frase e não encontrariam sentido.
Nem em tua alma nenhuma palavra teria abrigo, infeliz na não-existência caricata.
Eu juraria que nada do que escrevo movimenta um grama de paixão,paz,morte,felicidade,tortura ou uma lágrima no canto do olho.
Você gritaria e agitaria os braços:
_ Tire esse texto do caminho.
E ,embaixo da escada, encolhido feito cachorro assustado,o texto rosnaria baixinho,tremendo.
Ali naquela esquina, a garoa fina, o casal permanece estático,olhando para o céu sob a luz da Lua.
E uma página em branco cai lentamente do céu,pesando aos poucos com as gotas da chuva.
Até que os olhos repousem sobre a página e lá não está escrito nada.
Eu juraria que aqueles olhos tristes do Destino nunca mais poderiam encontrar outros olhos para fitar.
Mas asim que adormeci você apareceu em meu sonho, vestida de branco, silenciosa, com uma carta na mão, que me entregou.
E nela não estava escrito nada.
Eu juraria que esse texto naõ existe.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Silêncio

Quando tomas por mim o silêncio que te toca a face
Enluto,mal penso,as palavras se arrastam.
Qual raio de Sol solitário,viúvo,mórbido
Assim é meu olhar,noctívago, carregado de sentidos mal interpretados
Sigo enlevado,destruindo o momento assim que ele nasce
Caminhando sofregamente por entre túmulos e flores
acenando para a morte e flutuando de encontro à vida.

Teu sorriso permanece na retina,perscrutando a noite,camuflado
Teu meticuloso desígnio,a quase alegre e fortuita dor que floresce
Tua cabeça em meu peito,a agulha no sulco,o som arruinado de mil gritos
A taça quebrada,o vinho derramado,a mudança súbita de universo
E nossos corpos encarcerados um ao outro,a crueza do desejo não dissimulado
As nuvens de prazer,a carne marcada,o desmaio consciente e um Deus herege observando
o suór esconder a prece encarnada no segredo preso na garganta.

Assim,permanecemos hostis ao destino
Tua boca esparramando cores por entre a fumaça
e o mais belo amanhecer multiplica-se em nossas entranhas.

Luciano Pires

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dois Passos

Dois passos adiante e minha mente repousa recostada em muros altos.
Aparentemente distante,intensifica os segundos soprando distração e medo
pra debaixo do tapete.
Por cima do ombro,olho para o silêncio da vida,retrovisor embaçado e labiríntico.
Caleidoscópico.
Sente-se aqui, ao meu lado,responda algumas poucas questões sem esboçar qualquer reação.
É assim que me torno mais que a sombra de um guerreiro injustiçado.
É assim que me torno mais humano e menos dormente.
É assim que sacrifico todas as almas e jogo pelo bueiro aquela dúzia de moedas enferrujadas.
Não é nada,não há de ser nada.
Um segundo de pausa.
Um suspiro e um grito.
A música sobe lentamente.
A luz se apaga.
Embora seu vulto se avolume e se distancie,permaneço imóvel.
Todo o ar ao redor se solidifica.
O eterno me estrangula ,sorridente,sussurrando frases desconexas.
Me ajoelho devagar,depois deito e meu sonho se faz, belo e infinito.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Morra

Eu andava lentamente,com o corpo vazio.
Um tiro na cara,porra.
Levei um tiro na cara e permaneço sóbrio.
Você sorri nervosamente,um sorriso podre de desgosto e lágrima.
Nem precisei me levantar da cadeira, outro trago, a certeza burocrática de mil anjos mortos.
A fumaça invadia a retina e sufocava os pensamentos.
Um outro acorde infinito.
Tropecei lentamente no destino, morri outra vez, nem lembro mais quantas vezes essa semana.
Segurei o revólver, ainda quente.
Gritei com força.
A garoa fina permanecia dançando no teto da minha mente.
Atire, filho da puta.
Atire.
O sangue apenas esperava o momento certo pra correr livremente pelo chão sujo.
Atire.
Um casal se beijava ao som de um violão desafinado.
Atire.
Um copo de cerveja desaba da mão frouxa de um senhor embriagado e se estilhaça no chão.
Morra.
Levantei voo.
fechei os olhos e atirei.
Estou sentado de frente para a tevê desligada.
Faz duas horas.
Lá fora a garoa fina despeja suór de graça no dorso da realidade.
Dois segundos.
o mundo cai sem vida sob meus pés.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Felicidade

Brincando com a sanidade
Equilibrando os pratos.
Tocando cada partícula do tempo com precisão cirúrgica.
Sou eu inteiro, falho,cheio de decepções acolhedoras. 
Oscilações, intensidades, desejos, medos, fraquezas, soluções descartáveis e felicidades de aluguel.
Sou meio nada em busca de tudo.
Na natureza morta de um quadro virado de costas, abandonado em um sotão distante, ,valioso e esquecido.
Em meio a tantas quase-mortes, em meio aos tigres sorrateiros...sou cria do paraíso, enlameado dos pés a cabeça.
Nem sei ao certo onde moro,quem sou ou o que represento.
Mas há amor em mim, há a suave calma de pertencer a si mesmo.
E por volta da meia noite o relógio avisará novamente...
E morro outra vez.e ressuscito.
E estou dentro de ti, adormecido e substancial.
E sigo de mãos dadas...com poucas certezas...
Conciso e mudo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Teu

Sê o todo,tal qual o universo e seus meandros
E em cada fresta,um fio de luz,iluminando segredos
E em cada dúvida,a suave tranquilidade de navegar sublime por sobre as nuvens.
Sê assim,lago calmo,alma translúcida,abraço terno,beijo cálido,ilha segura e onírica.
Assim,em cada passo da longa caminhada, sê pássaro altivo, voando absoluto,imperioso,olhos atentos e asas abertas.
Em teu abraço, vivo
Em teus lábios dormem os meus
E em teu colo me construo
Me desfaço
Me reinvento
E, sendo ainda mais eu que antes,desfilo,impoluto,sem soçobros,coberto de brisa e indissoluto.
E ao te lembrar, no espelho,abraçados,indeléveis,suspiro abertamente,sem elocubrações,apenas a marca eterna de tudo que foi inferido e realizado.
E teu sorriso, desarmado e belo,inunda tudo de felicidade.
Como um límpido desaguar, rio caudaloso de infinitas embarcações,somos vento e vela e cais e porto e nave legítima descobrindo lugares inabitados.
Me dê a mão,sussurre ao meu ouvido,olhe para o horizonte,sinta toda a eternidade que flutua esparsa por entre as cores vívidas de nossas almas.
Enquanto isso,no alto da montanha,um senhor sorri e levanta as mãos e prescreve algumas notas,bate palmas e enlouquece
Aqui embaixo teu corpo está junto ao meu,sangue translúcido e quente correndo nas veias,a respiração,o bater ritmado do coração,a pele macia,o frêmito repentino de um trovão interno
que aturde tudo ao redor.
Te olho e te beijo,entregue e infinito.

Pessoas que aportaram por aqui: