quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Livros dublados

_Por que não fazem livros legendados?
_Como assim?
_Sei lá, todos os livros que eu li e que foram escritos em outra língua
são livros dublados...
O garçom coloca displicentemente a garrafa de cerveja na mesa e
foge daquela conversa de louco.
_Pensa comigo, nós vemos filmes legendados porque gostamos das vozes originais
dos atores e lemos a legenda que traduz fielmente o roteiro e os diálogos...
o filme dublado é uma adaptação, precisa caber na boca do ator, que nem fala a língua,
a sincronia é mais importante que o sentido...
_Tá, e onde você quer chegar?
_Os livros que nós lemos são livros dublados.
_Hã?
_Por que não legendam os livros? Poderiam colocar uma frase na língua original e a tradução
embaixo, em outra cor.
_É, algumas coisas poderíamos entender na língua original mesmo ou buscar traduções por conta
própria.
_Vou escrever um livro legendado.
_ Sobre o que?
_Ainda não sei,mas as legendas serão vermelhas.
_Mais uma cerveja?_ o garçom diz
_Traz mais duas,e a conta...legendada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Poesia


A poesia é experimento
é momento, é hipocrisia
é em determinada hora do dia colocar pra fora
a carcaça escondida de uma inspiração que não veio.
É dizer do céu a nuvem escondida
a palavra criada, a certeza fodida de que nada deu certo
na vida.
É rir da cidade, das ruas e dos rios
É proferir absurdos e tingir de vermelho os lábios frios
A malícia que zomba dos puros,os morcegos ,os muros
os mendigos e suas filosofias (e os poetas inspirados)
A poesia é o medo, a corda enforcada no pescoço lírico.
O absurdo , o nítido
o deserto mascarado dos teus olhos.
A poesia é a beira do abismo
e a cadeira de balanço do tempo...
é o indizível.
O sentinela faminto, devorando sentidos
o sutil bater de asas dos pensamentos sorvidos, a mais elétrica das metáforas
o olhar destituído de glória
a cólera desdentada da humanidade...o mito final...o suicídio
(embora tudo seja cíclico), a verdade silenciosa do espírito...
A poesia é isso,o que não se escreve.

sábado, 31 de julho de 2010

Som


Uma noite de silêncio...
Uma espera delineada por dois dedos de esperança morta.
Escancarei meus sonhos destruindo todos os mil caminhos de volta para casa.
Eu gritei e me ensurdeci, berrando palavras desconexas...
Ainda existe uma cerveja gelada na geladeira?
Murmurei,impaciente, um mantra hipotético (como se fizesse parte de um ritual mágico).
Corri,abri, derramei minha alma goela adentro...surtei por dois segundos, tremi,suspirei e me arrependi de tudo.
Ainda ouço o diálogo incrustrado na retina.
Os segundos eternos de um apodrecer minimalista.
Ainda te amo...ouvi centenas de vezes,uma escala de cinza desaparecendo no espaço e o ruído surdo de um fechar de portas
suicidas.
Queria apenas me debruçar em dúvidas e escorraçar as tristezas, mas há uma serenidade pálida tingindo tudo...sempre.
Mais uma cerveja e os olhos saltando lágrimas das órbitas e teu retrato sussurrando passados e centenas de perdões e nenhuma
obsessão curaria agora a necessidade de me sentir lúcido.
Acabou.
Mais uma noite breve e estanque, mais uma cicatriz jorrando crenças.
(e ainda lembro da vontade quase patológica do teu beijo)
Quanto tempo se passou desde que me tornei um anjo decepado cuspindo medos por todos os poros?
Ainda assim é cedo.
E minha alma,cega, vaga por entre os trens e estações e se perde entre as almas e sonhos, demasiadamente viva e real.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Reflexo


Refletido em teus olhos sou apenas um pixel
Morto em significado.
Atravessando um caminho inverso, inacabado.
Espelho enferrujado, lente empoeirada de sentidos.
Por entre os dedos, quase envergonhada,você me olha
e distrai todos os pensamentos entre a névoa da madrugada e doses ínfimas de solidão.
Não enxergo as linhas, finas considerações, apagadas, tímidas
Enfrento os dias, sufocado em meus próprios medos
esperando a promessa muda de tempos melhores (enquanto ainda respiro)
Refletido em teus olhos.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Memória


Há de se ter memória.
Por entre os dentes do destino,
na escória maldizente dos versos, velhos,
prende-se tecidos de nada, bordados com palavras
e sonhos.
Teu sorriso e teu silêncio,mortos.
Sem teu olhar , meu destino é nulo
Um absurdo imóvel,um sono profundo, um estalar de dedos no cérebro.
Há de se ter vida.
Para que a necessidade se atormente,para que o inevitável se acabe.
E , ao longe,todo passo e todo ruído se turvem e se escondam.
Há de se ter dia, por que a noite perdura e me enegrece e meus olhos se apagam
roendo cada segundo de um morno amanhecer.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Grito

O grito desata o nó
e permaneço preso.
Teu nome,a presença escandalosa de uma calma fria,
Minhas mãos ao redor da tua alma.
Tudo isso desmistifica o teu olhar.
desmaia o equilíbrio quase eterno da tua voz
e meus ouvidos se calam
estrangulam-se os segredos
e eu prevejo o suicídio sutil
de todos os meus sonhos e a tristeza inequívoca e disforme do último adeus .

Desordem


Vomitei, por todos os poros,anseios
Criei,entre as sombras da memória, demônios
Li mil livros (sem um balbuciar qualquer)apagados
Abandonei os planos,através da noite,mutilados
E, ao invés de signos, criei o caos
ao invés de voz,sussurros
e entre os muros e murros
Silêncios.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A saudade de um sonho


E ela novamente espantou o Sol com as mãos e devolveu ao tempo aqueles olhares tristonhos e melancólicos de anos atrás...sempre fazia isso quando precisava sorver algum cálice mais amargo de saudade, uma memória desgastada ou um silêncio difícil de digerir...
Fez um psiu agudo quando viu por um segundo ele passar.
_Poderia me olhar e talvez dizer o quanto tem saudade de mim?
_Impossível.
_Por que?
_Porque teus olhos me afastam, teu odor intranquilo de quase ódio.
_Não te odeio,apenas não sei o que me fez pensar certas coisas...
_E agora prefiro caminhar ao largo do teu coração, farejando novos medos, transformando-me em névoa ao primeiro contato.
Ela se aproximou e beijou de leve a boca ensanguentada...
­_Nada me fará te perder,nada...nem o peso maldito do tempo, nem a absurda intranquilidade que me causa estar longe de mim mesma.
Ele chorou friamente e levantou os olhos para o infinito.
Ao menos por um instante o céu estremeceu,e tudo se tornou silencioso e denso...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Silêncio

Um silêncio absurdo entra pela porta
me olha nos olhos...me encara
eu apenas penso demoradamente...
vejo por um segundo todos meus medos se encolherem...
e a fragilidade do destino perante minhas escolhas
e a quase solidão espalhada pelos quatro cantos da sala
o sopro frio do passado espreitando...
mas me mantenho em pé, ancorado
um breve hesitar,um passo pra trás
e encaro friamente de volta aquele silêncio estrondoso
e tudo se torna embaraçosamente nítido
todas as nuances de palavras e sentidos sobrevoando minha cabeça
estico a mão e acaricio cada fotograma
uma projeção lenta e desfocada de sentimentos sem cor
o silêncio escorre morno pelas frestas do tempo
e molha meus pés...
ergo a cabeça e sinto tudo despencar demoradamente
e abro cada poro
cada centímetro de alma...
e recebo em mim milhões de átomos de silêncio
significados e dúvidas.
Um desmaio consciente, beirando a loucura e tocando de leve o caos...

Luciano Pires

domingo, 27 de dezembro de 2009

Opus

Comum
Uma estrela caindo num ângulo improvável
manchando o céu
rasgando o horizonte
cortando a alma horripilantemente
num acesso de fúria repentina e cruel...
O caos
sua sombra projetada
e mil delírios de cores
esmagadas pelos poros
mutiladas e apáticas esperando o recomeço.
E eu, nada além de destroços
amordaçado pelo tempo
pelas inúteis paisagens de amores
a saudade escassa
a metamorfose eterna...
Eu, ruído fosco do Destino
pálido sereno no amanhecer sutil
espero consentir
e ter ao menos um segundo de deleite
quando tudo acabar, quando a mente ruir
e as idéias se esparramarem pelo solo
incandescentes...

Luciano Pires

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