sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A morte da metáfora

 

Tenho a impressão de que a metáfora não morreu por desgaste estético. Morreu por incompatibilidade.

Ela não se encaixa mais nos sistemas que organizam o mundo. Não indexa direito. Não promete nada com clareza.

Exige tempo, exige interpretação, exige risco, e tudo isso passou a ser tratado como falha.

No YouTube, a metáfora não é proibida. Ela apenas não rende. Títulos metafóricos não performam porque não dizem exatamente o que são. Thumbnails sugestivas fracassam porque não podem ser classificadas.

O problema não é entendimento; é tolerância. O algoritmo não aceita aquilo que não se deixa reduzir a uma intenção explícita.

Durante muito tempo, a linguagem funcionou como uma zona de amortecimento. Havia maneiras indiretas de dizer o que não podia ser dito, de justificar o injustificável, de encobrir a força com narrativas aceitáveis.

A política internacional sempre dependeu disso. Não se invadia um país para tomar petróleo. Fazia-se uma “intervenção”. Não se impunha poder. “Defendia-se a democracia”. Eram fórmulas gastas, cínicas, mas ainda eram fórmulas. Ainda havia encenação.

Esse teatro foi abandonado. Quando Trump fala abertamente em invadir para pegar petróleo, quando rasga o direito internacional sem se dar ao trabalho de construir um subterfúgio moral, não estamos diante de franqueza. Estamos diante de literalidade. A força não se explica. Ela se anuncia.

Putin faz algo semelhante. Não convence, não elabora, não persuade. Avança. A narrativa vem depois, se vier. Não há metáfora suficiente para cobrir o fato consumado.

A literalidade tem algo de brutal. Ela elimina mediações. Dispensa o simbólico. Não pede interpretação, pede adesão ou silêncio. E o curioso é que esse mesmo gesto aparece em toda parte. Na política, na cultura, na comunicação cotidiana. Tudo precisa dizer exatamente o que é, imediatamente, ou desaparece.

A metáfora sempre foi um risco. Ela pressupõe que o outro pode não entender. Ou pode entender errado. Esse risco hoje parece intolerável. Um mundo sem metáfora é um mundo onde o sentido já vem fechado, pronto para ser aceito ou rejeitado, sem intervalo.

Talvez a insistência contemporânea na clareza, na objetividade, na chamada honestidade brutal, tenha menos a ver com virtude e mais com impaciência. A clareza absoluta costuma ser a linguagem do poder quando ele já não precisa se justificar. O algoritmo exige clareza porque precisa decidir. O poder literal exige clareza porque já decidiu.

A metáfora não desaparece dos livros. Ela desaparece dos sistemas. Some quando deixa de ser útil, quando atrapalha, quando demora demais. O mundo não parece interessado em ser interpretado. Parece interessado em funcionar.

E o que sobra para quem ainda escreve por desvio é essa sensação estranha de inadequação. Falar num idioma que já não é recompensado. Insistir em zonas de sombra num ambiente que exige iluminação total. Não como resistência. Apenas como constatação de que algo necessário ficou para trás.

 

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