sexta-feira, 7 de abril de 2017

Deus

Pálido,quarto adentro,mal limpava os tetos de seus céus particulares,tudo era interno,estranho e desabitado.
Poeira negra, fuligem,livros que a vida lhe emprestava,histórias pela metade.
O Sol brilhava.
Pela janela se via a cascata colorida de pensamentos sufocantes,embrulhando a atmosfera,apertando o pescoço e sangrando por entre todos os poros.
Parado em frente à porta,olhos fechados,murmurava uma oração qualquer improvisada, sem deuses,nem santos, nem nada digno de adoração, eram apenas mantras sem sentido,algo pra aplacar as centenas de vozes desafinadas e ensurdecedoras que se amontoavam ao seu redor.
Assim era seu destino, suas horas de cansaço, seu desmaio contínuo,mesmo de pé.
A televisão continuava a hipnotizar as verdades corriqueiras,as enchentes,a bala perdida,a vida lotérica, a palavra espancada.
Mais um passo, um mais, pé ante pé, toda a geografia mancava por entre suas pernas,sob a sola dolorida, sobre sua mente, o cabelo desgrenhado,a voz rouca e sussurrada, fumaça negra.
Ao seu lado apenas uma criança,sua pele sangrava, havia sempre uma poça de sangue escorrendo continuamente em direção ao bueiro. As enchentes, todas as enchentes, a água suja destruindo tudo, levando os carros, os telhados, o vento forte, a chuva, a chuva inundando as ruas, o barulho da chuva,as enchentes.
Dentro do segundo onde tudo parou,sua mente ficou quieta,tudo parou, tudo secou, tudo parou, a certeza de que nada existe, tudo parou, a voz mal saía, tudo parou.
Sua alma apenas lhe apertou a mão, sorriu e o corpo inerte despencou sobre as escadas escorregadias,as enchentes,ele estava limpo.
Assim nada sobrou,o mundo projeção encontra a parede lisa e branca e não há letreiros,não há música,apenas a luz amarelada e quente evaporando a chuva que escorre.
O Sol brilhava novamente.
Nem Deus me assustaria agora.

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